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A Lenda do Arranca-Línguas - Folclore Brasileiro

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , ,

 


   Olá pessoal! Eis aqui um relato do folclorista Marco Aurélio loMonaco sobre a lenda do Arranca-Línguas, retirado de seu livro "Folclore: Mitos e Lendas do Folclore Brasileiro":

   "Existem algumas lendas que são próprias para as nossas crianças, em razão da singeleza de suas estórias, recheadas com muito tom de inocência. Assim são todas as fábulas mitos e lendas do folclore nacional. Aqueles que estudam as lendas e os mitos de nosso folclore têm que saber diferenciar e, de forma geral, separar muito bem o que é de fato mito e lenda do que são estórias de fundo verídico.
   Na região de Aruanã, antigo porto fluvial da conhecida região do Araguaia, lá pelos idos do século XVIII, os habitantes da região viram aparecer no gado uma certa febre aftosa. Mas, no ano de 1929, quando parecia ter desaparecido, ela voltou com muito mais força do que aparecera. Era uma doença com agudos de comichão na língua do gado, o que obrigava os animais a cortá-las com os dentes. Com isso, o sangue esvaía-se lentamente, deixando-os fracos para o abate. Assim, perdia-se muito dinheiro, principalmente os criadores da região.
   Essa febre aftosa talvez atacasse mais esses membros do gado, por causa da alimentação inadequada ou mesmo em razão da terra carregada de salitre, que a deixava salgada dos barreiros. Foi dessa forma que surgiu a lenda do terrível Arranca-Línguas. Essa lenda formou-se na comunidade rural e depois tomou proporções extensas, alcançando toda a região do Estado de Goiás e as que fazem fronteira com ele. Essa calamidade chegou a alarmar todos os pecuaristas do centro-oeste do país.
   A endemia, que apavorou uma grande parcela da população, chegou até a cidade de Caldas Novas, onde algumas pessoas chegaram a afirmar terem visto o arrancamento das línguas bovinas materializam-se por várias vezes e em diversas localidades. Essas pessoas afirmaram terem visto o vulto de um enorme homem arqueado, semelhante a um gigantesco gorila, braços e mãos compridas e a cara achatada, Então, a crendice em torno dos mitos e das lendas, todas as manifestações pela sugestão de seu inconsciente, criou a fantasia e os diálogos em que o tal monstro, com a voz muito fanhosa, pedia que não disparassem contra ele, dizendo:
  - Não me mate, vaqueiro, que você virá arrancar línguas em meu lugar!
  - Quem é você?
  - Sou a personificação do castigo. Venho punir os ladrões de gado! - teria respondido o estranho personagem.
   Continuando o diálogo, teria o pavoroso monstro explicado que fora também um conhecido e célebre ladrão de gado e que agora tinha sido condenado a tomar a forma de um pavoroso monstro até poder cumprir a sua sina. E, falando assim, foi andando para trás como se fosse em marcha-ré, na direção da cidade de Caldas Novas, sem se voltar, e desapareceu. desde então, não ocorreram mais encantamentos.
   Esse fato, relatado e colhido por minha pesquisa em 1981 na cidade de Goiânia, fez parte por muitos anos da crença dos pioneiros que por ali se empenhavam nos serviços e trabalhos de edificação do Palácio do Governo e foi levado ao conhecimento de alguns políticos que decidiram servir-se do acontecido para fazer a propagando de mudança, atraindo a atenção do mundo para Goiás e usando o absurdo desta bizarra estória.
   Nasceu daí a lenda do nosso popular 'King Kong'. Colocaram-no novamente na região do Araguaia, onde estaria desempenhando a sua missão contra os fazendeiros do oeste da velha capital. Muita gente ia ao Araguaia para vê-lo, se possível. Até fotografaram o monstro. Era tanta gente dizendo que o tinham avistado, que acabou por materializar-se numa "realidade virtual". Muitos correram assustados. Chegaram até a pedir providências ao senhor Ministro da Agricultura.
   Esses acontecimentos chegaram até 1935. Os que conseguiram entrevistar o 'King Kong' informaram que se tratava de um homem rude, de modos grosseiros, baixo, arqueado, coberto de pelos escuros por todo o corpo, não tendo nenhuma semelhança com os gorilas africanos.
   Segundo informações, esse Arranca-Línguas operava desde a cabeceira do Xingu até perto da capital de Goiás, por dentro da bela cidade de Goiânia, onde muitos garimpeiros e seringueiros (os que se dedicam à extração do látex) tinham sido agredidos pela criatura. Informaram eles que um certo mateiro da região, ao tentar atacar a criatura, teve a cabeça decepada e espetada numa estaca na entrada do mato. Ela não foi cortada com instrumento cortante, mas sim, quebrada e arrancada a muque."

 

Tahina-Can - Folclore da Tribo Karajá, Brasil

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , ,

 


  Os Karajás do rio Araguaia contam que, na época de seus antepassados, a estrela vespertina brilhava tanto, que a jovem e bela Imaherô se apaixonou por ela, julgando que fosse um bravo guerreiro vivendo lá no céu. Tanto ela pediu à estrela que descesse à Terra que um dia isso aconteceu.
   Mas Imaherô se decepcionou muito, pois a estrela vespertina, que se chamava Tahina-Can, veio na forma de um homem velho e fraco. Quando ele disse que viera do céu para casar-se com ela, a moça fugiu espavorida, dizendo que não poderia aceitar um esposo como ele. Porém a irmã de Imaherô, Denakê, sentiu piedade do velho e disse que se casaria com ele. Os dois então passaram a viver juntos, e eram muito felizes.
  Tahina-Can foi um dia ao rio Araguaia e de suas águas retirou as sementes de mandioca, milho e abacaxi. Plantou as primeiras roças; graças a ele, as plantas cresceram para alimentar a tribo. Contudo, quando ia trabalhar na roça ia sempre sozinho, pois para plantar e colher ele se transformava em um belo e forte rapaz, mas não queria que ninguém o visse. Um dia, como ele demorava a voltar, Denakê saiu para procurar pelo esposo e teve a maior surpresa de sua vida, encontrando-o sob aquela forma.
   Depois daquele dia ele não mais se transformou como um velho homem, o que deixou Imaherô desejosa de ser sua esposa. Porém, quando ela lhe pediu que deixasse sua irmã para casar-se com ela, que era mais bela, Tahina-Can negou, pois Denakê o aceitara antes, e somente ela merecia seu amor.
   Imaherô ficou muito triste por ter assim perdido o amor que tanto esperava. Entrou na floresta e nunca mais voltou. Dizem que ela foi transformada no pássaro urutau, e que desde então solta seus lamentos na mata, chorando pela estrela perdida.




   Sobre os Índios Karajá

   Os Karajá ou Iny, como se auto denominam, vivem na região dos rios Araguaia e Javaés, nos estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. Hoje contam com cerca de quatro mil indivíduos que apesar de toda a socialização com os não-índios ainda mantêm firme sua cultura, tradições, língua e ensinamentos. A denominação Karajá é datada do ano de 1908, quando foi consagrada após sofrer diversas modificações, mas a auto denominação original dessa etnia sempre foi Iny, que na língua deles significa “Nós”. Em relação a língua original da etnia, classificamos ela como pertencente ao tronco Macro-Jê que engloba também o Javaé e o Xambioá, que apesar de algumas diferenças na pronuncia são facilmente entendidos entre si. Hoje em dia grande parte das tribos Karajá já tiveram contato com o português e o utilizam no seu cotidiano, como forma de facilitar o contato com os não-índios.
Os Karajá têm uma longa convivência com a Sociedade Nacional, o que, no entanto, não os impediu de manter costumes tradicionais do grupo como: a língua nativa, as bonecas de cerâmica, as pescarias familiares, os rituais como a Festa de Aruanã e da Casa Grande (Hetohoky), os enfeites plumários, a cestaria e artesanato em madeira e as pinturas corporais, como os característicos dois círculos na face. Ao mesmo tempo, buscam a convivência temporária nas cidades para adquirir meios de reivindicar seus direitos territoriais, o acesso à saúde, educação bilingue, entre outros.



Fonte: livro Volta ao Mundo em 80 Mitos, de Rosana Rios