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A Caixinha de Alfinetes da Anjana - Conto Popular Espanhol - Cantábria

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , , , , ,


  Na Cantábria, há umas bruxas chamadas anjanas, possuidoras de grandes poderes, que recompensam os bons e castigam os maus. Há também os ojáncanos (cíclopes), bruxos com um só olho no meio da testa, que só pensam em prejudicar as pessoas. Vivem em grutas e são eternos inimigos das anjanas.
  Um dia, uma anjana perdeu uma pequenina caixa que continha quatro alfinetes, cada qual com um brilhante, e tres agulhas de prata com orifício de ouro.
  Uma mendiga, que andava pedindo esmolas de povoado em povoado, encontrou a caixinha. Mas sua alegria durou pouco, pois logoa mendiga concluiu que, se tentasse vender a caixinha, todos pensariam que a havia roubado. Assim, não sabendo o que fazer com aquele tesouro, resolveu guardá-lo.
  A mendiga vivia com um filho, já moço, que a ajudava a conseguir seu sustento. Certo dia, o rapaz foi até o bosque, na encosta de um monte, para apanhar frutos silvestres. Estava tão concentrado em escolher os frutos mais saborosos, que não percebeu a presença de um ojáncano, que o raptou, num abrir e fechar de olhos.
  Desesperada, ao ver que passavam os dias e seu filho não voltava, a pobre mulher continuou pedindo esmolas, sempre levando a preciosa caixinha no bolso. Como não sabia que um ojáncano havia raptado seu filho, julgou que ele houvesse se perdido no bosque e que agora já estivesse morto. Então chorou amargamente, porque aquele era seu único filho.
  Certo dia, depois de pedir esmolas durante  horas, sem conseguir quase nada, passou diante de uma velhinha que costurava. Justo naquele momento, a agulha da velhinha se partiu e ela perguntou:
  - Por acaso a senhora não teria uma agulha para me emprestar?
  - Tenho, sim, pois outro dia encontrei uma caixinha com quatro alfinetes e três agulhas - respondeu a mendiga. - Por tanto, vou lhe dar uma.
  A velhinha agradeceu e a mendiga seguiu seu caminho. Pouco depois, passou diante de uma moça muito bonita, que estava fazendo barra num vestido. E aconteceu exatamente o mesmo: a agulha da moça se quebrou. Então, a mendiga deu de presente a segunda agulha.
  Mais tarde, passou diante de uma menina que bordava... E uma vez mais o fato se repetiu. Assim, a mendiga deu de presente a terceira agulha.
  Na caixinha, só restavam os alfinetes. E aconteceu que no final daquele dia a mendiga encontrou uma jovem, que tinha um espinho cravado no pé. A jovem lhe perguntou se ela não teria um alfinete para ajudá-la a tirar o espinho. E, claro, a mendiga deu-lhe um dos alfinetes.
  Ao cair da tarde, encontrou outra moça, que chorava desconsolada, pois havia rasgado sua saia num arbusto. Com isso, a mendiga deu seus três últimos três alfinetes para que a moça arrumasse a saia. Assim, acabou ficando com a caixinha vazia.
  A mendiga continuou andando e chegou a um rio. Mas não havia ponte para atravessá-lo. Então ela caminhou pela margem, na esperança de encontrar vau, um trecho onde o rio fosse mais raso, para que pudesse passar. Estava concentrada nisso, quando ouviu uma voz que parecia vir da caixinha:
 - Aperte-me contra a margem do rio.
  A mendiga obedeceu. De repente, surgiu uma grande prancha de madeira, que cruzava o rio de lado a lado, como uma ponte. Assim, a mendiga pôde chegar à outra margem. Ouviu novamente a voz que, agora não restava dúvida, vinha mesmo da caixinha:
 - Sempre que você desejar algo, ou precisar de ajuda, aperte-me.
  A mendiga seguiu o seu caminho, mas teve a má sorte de não encontrar nenhuma casa onde pedir esmolas. O dia, que já se findava, tinha sido exaustivo. E ela sentia uma fome terrível. Então lembrou-se da caixinha e pensou: "Será que ela me daria algo para comer?"
  Apertou a caixinha com as duas mãos e no mesmo instante apareceu um pão quentinho, como se tivesse acabado de sair do forno. Muito contente, a mendiga o saboreou com prazer enquanto continuava sua caminhada. Pouco tempo depois avistou uma casa, à qual se dirigiu, a passos largos, para pedir esmola. Mas na casa só havia uma mulher que chorava pela perda da filha, que tinha sido raptada por um ojáncano que vivia no bosque, na encosta do monte. Compadecida, a mendiga lhe disse que  iria até lá procurar a moça.
  Mas nem sabia por onde começar a busca. Por isso, decidiu recorrer uma vez mais à caixinha. Apertou-a com força e, no momento seguinte, apareceu uma corça, com uma grande mancha em forma de meia-lua, na testa. A corça olhou-a com mansidão e, em seguida, começou a andar em direção ao bosque. A mendiga a acompanhou por muito tempo, até que a corça se deteve diante de uma grande pedra e ali permaneceu, como se esperasse por algo, ou alguém.
  Desconcertada, a mendiga voltou a apertar a caixinha e, diante de seus olhos, surgiu um martelo bastante pesado. Erguendo-o com dificuldade, a mendiga golpeou a pedra com todas as suas forças, até que esta se rompeu, deixando à mostra a entrada de uma gruta... Era ali que morava o ojáncano.
  A mendiga entrou, acompanhada pela corça. Embora a gruta estivesse mergulhada na mais completa escuridão, a meia-lua na testa da corça brilhava, iluminando o caminho. As duas vasculharam a gruta, até que encontraram um rapaz, que dormia profundamente.
  A mendiga reconheceu nele o filho desaparecido algum tempo atrás. Então compreendeu que o ojáncano que habitava aquela gruta o havia raptado. Emocionada, ela despertou o filho. Ambos se abraçaram com imensa alegria e apressaram-se a sair dali com a ajuda da corça.
  Os três foram para a casa da mulher que chorava a perda da filha. Mas, lá chegando, a mendiga viu que ela já não chorava a perda da filha. E reconheceu, por seu olhar bondoso, que aquela mulher era uma anjana.
 - A partir de hoje, esta será sua casa - disse a anjana. - Nunca mais deixe que seu filho vá ao bosque, a menos que ele prometa que tomará muito cuidado. Agora, aperte pela última vez a caixinha.
  A mendiga obedeceu. Pressionou a caixinha com força e, logo em seguida, apareceram cinquenta ovelhas, cinquenta cabras e seis vacas. Assim que terminaram de contar os animais, a mendiga e o filho viram que a corça, a anjana e a caixinha de alfinetes haviam desaparecido, como que por um passe da mais pura magia.

* Cantábria é uma comunidade autônoma localizada no norte de Espanha. É limitada a leste pelo País Basco, a sul por Castela e Leão, a oeste pelo Principado de Astúrias e a norte pelo Golfo da Biscaia.

Anjana, bruxa boa da Mitologia Cantabriana

Ojáncano, cíclope da Mitologia Cantabriana


Fonte: livro Contos Populares Espanhóis, seleção e tradução por Yara Maria Camillo (original de José Maria Guelbenzu)

La Barretina Verde - Conto Popular Espanhol - Catalunha

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  Era uma vez um homem de coração puro, que reunia grandes qualidades de caráter. Logo vocês verão o que lhe aconteceu...
  Certo dia, esse homem encontrou uma bruxa transformada em raposa. A bruxa não podia voltar a sua forma de mulher porque, ao banhar-se no rio, tinha deixado suas roupas num arbusto e alguns rapazes as haviam roubado.
  Já que ninguém estranha a nudez dos animais, a bruxa havia preferido se transformar em um deles  para não causar escândalo.
  Impressionado com essa triste história, o homem foi buscar as roupas para que a mulher se vestisse e, assim, deixasse de ser raposa.
  A bruxa, muito grata, deu-lhe um gorro verde e disse:
 - Com este gorro, você poderá ler os pensamentos das pessoas.
  O bom homem ficou muito feliz com o presente. Agora, poderia saber o que as pessoas pensavam a seu respeito. Assim, encontraria sempre a melhor forma de se entender com elas. E sua vida seria muito mais agradável.
  Logo lembrou-se de um vizinho, que vivia reclamando por causa de uma nogueira que ficava entre o seu quintal e o dele. O problema poderia ser resolvido facilmente com um pouco de boa vontade, mas o vizinho o estava processando.
  O homem decidiu cuidar desse assunto. Colocou o gorro e foi procurar o advogado que contratara para defendê-lo. Queria conversar com ele, ouvir sua opinião e saber em que pé andava o processo. assim que o encontrou, leu seu pensamento:
  'Estive perdendo meu tempo, ocupando-me da defesa desse paspalho. Mas ainda vou reverter o jogo: cobrarei dele a quantia que necessito para o dote de minha filha, que se casará em breve. Depois, arranjarei uma boa desculpa para mandá-lo embora."
  O bom homem, horrorizado com o que acabara de descobrir, decidiu tratar do caso diretamente com o vizinho. Tentaria fazer um acordo, dispensaria o advogado e, assim, o problema estaria resolvido.
  Sem perder tempo, foi à casa do vizinho, cheio da maior boa vontade. Mas, como continuava usando o gorro verde, logo adivinhou o que o vizinho pensava:
  "Já sei o que vou fazer com esse idiota. No dia em que ele estiver cuidando de suas videiras, e que sua mulher for ao mercado, aproveitarei a oportunidade para atear fogo em sua casa."
  Nem é preciso dizer o terrível efeito que essa revelação causou ao pobre homem, que se afastou dali a passos largos, sem dar explicações.
  Desesperado, correu para casa com a intenção de contar à mulher o que havia acontecido. Queria  pedir-lhe um conselho, pois, àquela altura, não tinha ideia sobre a qual a melhor atitude a tomar , na situação em que se  encontrava.
  Devido à pressa e à angústia, esqueceu-se de tirar o gorro. Tão logo se aproximou da esposa, percebeu o que ela estava pensando:
  "Ah, veji que o imprestável do meu marido já está de volta. Qual seria o melhor jeito de me livrar dele? Talvez eu pudesse colocar veneno em sua sopa e despachá-lo para o outro mundo, que é o lugar ideal para homens santos e bobalhões. Livre deste traste, poderei me casar com aquele comerciante que anda me cortejando... Juntos, saberemos dar um bom destino ao dinheiro que esse paspalho vem guardando há anos."
  Um golpe certeiro no peito não teria abalado tanto o bom homem, que se sentia prestes a perder o juízo. Ficou tão transtornado, que teve de se apoiar numa parede para não cair. Então decidiu procurar a filha para contar-lhe as verdadeiras intenções de sua mãe.
  Logo que se aproximou da moça, pôde ler o que ela pensava:
  "Assim que meu pai sair para trabalhar, vou descobrir onde ele guarda o dinheiro que vem economizando há tanto tempo. Pegarei o dinheiro e irei à casa de Juan, que está me esperando. Fugiremos para Barcelona e nos casaremos em segredo. Afinal, sei que meu pai não aprovaria essa união. Portanto, não tem sentido pedir sua bênção... Pensando bem, até que eu poderia convencê-lo, já que ele é ingênuo como uma criança. Mas não vejo o porque me dar a esse trabalho, se posso resolver as coisas mais facilmente."
  Fora de si, o bom homem só conseguiu pensar no filho, a única pessoa que lhe restava. E foi procurá-lo em seu quarto. Encontrou-o ocupado em arrumar as malas.
  Ainda com o gorro verde, o homem logo adivinhou o pensamento do rapaz:
  "Que azar meu pai vir aqui justamente agora. Como vou lhe explicar que planejo sair de casa, correr o mundo, viver aventuras e fazer fortuna? Bem que eu poderia tentar... Mas será que vale a pena? Meu pai é um homem bom, porém um pouco burro. Aposto que eu levaria horas para convencê-lo a abençoar minha viagem. E, pensando bem, para que preciso pedir bênção se já sou um homem feito?".
 - Basta! - Gritou o homem. - Já ouvi o bastante.
  O presente da bruxa era o pior que já recebera em toda a sua vida.
  Num ímpeto, ele arrancou o gorro, que só havia lhe trazido desgosto. Atirou-o ao fogo, para que nunca mais se sentisse tentado a usá-lo.

  Por isso, na Catalunha, quando uma pessoa desesperada toma uma séria decisão, costuma-se dizer que ela "atirou o gorro ao fogo".

Catalunha, Espanha

Fonte: livro Contos Populares Espanhóis, seleção e tradução por Yara Maria Camillo (original de José Maria Guelbenzu)