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Sadko, o Mercador - Folclore Eslavo

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , , , , , , ,


  Há muitos anos vivia na cidade de Novgorod um belo rapaz chamado Sadko. Andava sempre sem dinheiro. Toda a sua fortuna consistia no cabelo encaracolado, olhos azuis e o seu alaúde de madeira, de cujas cordas douradas arrancava doces melodias. Sempre que um nobre cavaleiro dava uma festa, Sadko era chamado para cantar as lendas antigas. Quando um mercador casava a sua filha, Sadko tocava para que a noiva bailasse. Pelo seu trabalho davam-lhe comida, bebida e um fardo de palha para repousar. As moças riam-se da sua túnica esfarrapada e diziam-lhe:
   - Queres dançar, Sadko? Dança com as canas que crescem à beira do rio, que não vão reparar nos farrapos da tua roupa.
 A maior parte das noites via-se Sadko obrigado a passá-las passeando pelas margens do rio Volga e cantar a sua beleza. Dizia ás águas:
   - Não há donzela na grande cidade de Novgorod, meu amado Volga, cuja beleza possa ser comparada com a tua.
 Passavam os anos e Sadko continuava a cantar o rio Volga.


 Um dia em que estava sentado na margem, enquanto a lua prateava as suas águas, surgiu um redemoinho no lugar mais iluminado como, se alguém tivesse lançado uma pedra. Cada vez se tornava maior a circunferência, até que, por fim, apareceu sobre as águas uma cabeça veneranda, de olhos verdes e grande barba, da qual pendiam ervas marinhas e vidros brilhantes. Por esta aparição soube Sadko que tinha diante de si o poderoso czar do Oceano:
 Disse o que emergira:
   - Tenho por ti um grande afeto, Sadko. As tuas canções dedicadas ao Volga comovem-me. Terás a tua recompensa se me jurares visitar-me sob o Oceano Azul para que a minha czarina possa ouvir melodias do teu alaúde.
 Respondeu Sadko:
   - Juro aqui mesmo que te visitarei, poderoso czar, sob o Oceano Azul para que a czarina possa ouvir o meu alaúde.
   - Lança então tua rede de pesca e o que apanhares será o presente que te faço.
 Dizendo isto, o czar desapareceu sob as águas, e depois de um novo redemoinho, como se tivesse sido um sonho.
 Sadko deitou as suas redes à água e apanhou um cofre de madeira. Ao abri-lo ficou maravilhado. Tinha diante dos seus olhos uma montanha de ouro, prata, pérolas, rubis e esmeraldas. Esmeraldas tão verdes que brilhavam como uma chama viva ao fulgor da Lua.
 Sadko voltou à cidade, onde vendeu a sua fortuna. Investiu, transforou-se num mercador. Assim multiplicou e acrescentou as suas riquezas. Continuava, no entanto, passeando pelas noites às margens do Rio Volga, cantando as suas maravilhas e dizendo às águas:
   - Não há donzela em toda a grande cidade de Novgorod, amado Volga, cuja beleza possa comparar-se com a tua.
 Mas o czar do Oceano não voltou a aparecer.
 Durante doze anos Sadko viajou pelo Oceano, negociando com longínquos países. Por fim alcançou tantas riquezas, que ninguém reunia outras que pudesse trocar-se por elas. Em todas as partes armava-se em poderoso, dizendo:
   - Sadko, o mercador, comprará todas as vossas mercadorias e todas as que possam existir em Novgorod. Carregará todos os seus galeões para os levar para fora, e se as suas riquezas não bastarem paa as comprar a todas, permite-vos que o enforqueis numa praça pública.
 E, com efeito, comprou o que se vendia no mercado, metendo tudo em arcas. Isto até que não ficou nada por comprar. Mandou os seus marinheiros que carregassem os galeões e , quando o fizeram, exclamou:
   - Timoneiros, levantem as âncoras, desfraldem as velas e façamo-nos ao mar.
 A frota de galeões zarpou. O primeiro parecia levar com orgulho Sadko, o mercador de Novgorod. Assim viajaram m dia e uma noite. Na tarde da terceira jornada viram-se obrigados a parar. Sadko exclamou:
   - Irmãos, lancem as sondas, meçam a profundidade da água e digam-me se demos com rochas escondidas ou com traiçoeiros bancos de areia.
 Os marinheiros obedeceram e mediram os fundos,mas sem encontrar rochas ou bancos de areia. Sadko chamou os timoneiros da frota. Ordenou-lhes que se reunissem no seu galeão com todos os marinheiros. Quando estavam todos, disse-lhes:
   - Desejo que encham uma medida com prata e outra com pérolas finas para as oferecer em nome de Sadko ao poderoso czar do Oceano. Durante doze anos viajei sobre as suas águas sem lhe pagar nenhum tributo e por isso creio que está zangado comigo.
 Os marinheiros encheram uma medida com prata, outra com ouro, outra com pérolas finas e atiraram-nas à água. Mas esta devolveu os presentes bradando:
   - Sadko, o czar não pede riquezas, mas sim uma vida humana. Que nenhum tronco de pinho cada navegante escreva seu nome e o de seus pais.
 Foi executada a ordem e os troncos rotulados flutuavam sobre as águas. Mas o tronco de Sadko, mercador de Novgorod, afundou-se no mar. Sadko exclamou:
   - Não se serve a madeira de pinho. Tragam-me troncos de carvalho e que cada um escreva o seu nome e o de seus pais.
 Assim se fez e todos os nomes voltaram a flutuar como patos na água. O de Sadko, mercador de Novgorod, afundou-se no mar. E o mercador exclamou uma vez mais:
   - Não serve madeira de carvalho! Tragam ciprestes porque Nosso Senhor foi crucificado num cipreste e abençoou essa madeira.
 Trouxeram pois ciprestes e cortavam-nos transversalmente. Todos escreveram o seu nome na madeira. Deitaram os troncos à água e só o de Sadko, mercador de Novgorod, foi para o fundo como se de chum bo se tratasse. Então, Sadko exclamou:
   - O que não pode ser evitado deve olhar-se de frente. Assim, eu Sadko, seguirei o meu nome às profundezas do Oceano Azul.
 Pôs sobre as costas o seu manto de arminho. Levava na mão esquerda umas medidas de pérolas perfeitas e na direita o alaúde, cujas cordas douradas murmuravam coisas de países longínquos. Os marinheiros lançaram Sadko às ondas e os ventos enfumaram as velas levando galeões a paragens longínquas. Sadko desceu até ao fundo do mar, mais baixo ainda do que os bancos de coral. Viu passar monstros marinhos, brilhar o corpo de um delfim e , por detrás de uma rocha, uma sereia. Por fim distinguiu um palácio de vidro verde, com adornos de jaspe e portas de esmeralda.

 Entrou Sadko no palácio e encontrou o czar do Oceano, sentado no seu trono, tendo ao lado a bela czarina. Perguntou com voz firme:
   - Poderoso czar do Oceano, porque me chamastes?
 Este franziu a testa com ira e respondeu:
   - Não juraste na margem do rio Volga que virias visitar-me? Não te recompensei por isso com riquezas? Durante doze anos viajaste pelos meus mares sem que o juramento te preocupasse. Agora chamei-te aqui contra a tua vontade e tocarás o alaúde até que te mande parar.
 Sadko tocou o seu alaúde diante do czar e o rosto deste alegrou-se como se o sol tivesse saído para iluminar uma passagem sombria. O monarca ergueu-se, colocou as mãos à cinta e começou a bailar ao compasso do alaúde.


Boris Olshansky. Sadko in the Underwater Kingdom. 1999


 Passou uma hora, duas, três. Os movimentos do czar eram lentos e graciosos, mas continuava a bailar sem se cansar, enquanto Sadko tocava também infatigavelmente. Quando o czar tinha dançado durante três horas, disse a czarina a Sadko:
   - Peço-vos que quebreis o vosso alaúde, Sadko. Não calculais o perigo que encerra, pois o czar quer bailar sempre. E quem será capaz de lhe negar a música? Se quiser bailar sobre as ondas convertê-las-á em verdadeiras montanhas e então os barcos ficarão sepultos pelas águas e os marinheiros morrerão.
 Sadko obedeceu à ordem da czarina. Partiu o seu alaúde de madeira e arrancou as suas cordas de ouro.
O czar gritava:
   - Continua a tocar, mercador de Novgorod! Não quero que pares!
 Sadko respondeu:
   - Não posso tocar mais. A madeira do meu instrumento partiu-se. As cordas rebentaram e só em Novgorod se pode compor o instrumento.
 Tão encantado estava o poderoso czar com a música e com a dança que olhou Sadko com simpatia e acabou por lhe dar os tesouros que abundavam no fundo do oceano azul. Por fim, perguntou-lhe:
   - Queres casar-te, Sadko?
 Sadko respondeu:
   - Sim, masjestade, mas não tenho noiva.
 Replicou o czar:
   - Eu tenho muitas filhas, e já que me trouxeste alegria ao coração, podes escolher entre elas a tua futura esposa.
 E chamou as filhas ali à presença deles.
 A czarina disse ao mercador:
   - Obedeceste aos meus desejos, mercador de Novgorod. Quero aconselhar-te. Não escolhas a tua noiva entre o primeiro grupo de formosas donzelas que o czar trará diante de ti, nem te decidas quando vires o segundo grupo. Do terceiro não escolhas uma formosa jovem, branca como o leite e rosada como as flores. Mas se queres ser o dono da Rússia e ver de novo a brilhante luz do sol, decide-te pela que se esconde atrás das suas irmãs, de tez morena e estatura baixa.
 O czar mostrou um grupo de formosas donzelas e convidou-o:
   - Escolhe dentre elas a noiva a teu gosto!
 Sadko respondeu:
   - Entre todas, ainda que sejam muito formosas, não encontro nenhuma que me agrade.
 O czar chamou o segundo grupo e pediu de novo a Sadko que escolhesse entre elas a sua noiva. Respondeu Sadko:
   - Entre todas, apesar da extraordinária beleza, não encontro nenhuma que me agrade.
 O czar voltou pela terceira vez com o último grupo:
   - Escolha agora, Sadko, uma noiva que seja do teu desejo, pois apresentei-te já todas as minhas filhas e uma delas há de ser tua esposa.
 Sadko olhava-as à medida que passavam e tocou naquela que se escondia por detrás de duas irmãs, e tinha tez escura e pequena estatura.
   - Esta moça agrada-me!


Ilya Repin, Sadko.1876 - Oil on canvas. State Russian Museum, Saint Petersburg, Russia.


 O czar deu a donzela por esposa ao mercador, com um dote de prata, ouro e pérolas perfeitas. Foi conduzido Sadko a um quarto espaçoso para descansar, e mal se deitou pôs-se a sonhar. Acordou na margem do Rio Volga, iluminado por um formoso sol. Sadko tinha todos os seus tesouros amontoados aos pés. Mas a filha do poderoso czar do Oceano havia desaparecido.
 Durante doze compridos anos os batéis do mercador subiram e desceram o Rio Volga favorecidos por ventos e mares. Nunca a fortuna o perturbou. Ao fim desse tempo todo, Sadko teve desejos de voltar contemplar a grande cidade de Novgorod. Deitou à água, o pão e o sal, e exclamou:
   - Presto-te este tributo, pai Volga, o teu curso sulcaram os batéis durante doze compridos anos, favorecidos por ventos e mares, Prosperei e floresci e nenhuma fortuna perturbou a minha paz. Agora quero voltar a Novgorod, onde passei a minha juventude.
 O rio respondeu:
   - Vai, digno mercador, e quando chegares à torre onde estão as portas da cidade, saúda o meu irmão Ilmen em nome do Volga.
 Sadko viajou para Novgorod, e quando chegou às portas da cidade, onde se encontrava a torre, fez uma saudação ao lago Ilmen dizendo:
   - És poderoso, Ilmen, saúdo-te em nome do teu irmão Volga e saúdo-te também em nome de Sadko, mercador de Novgorod.
 Um jovem surgiu então sobre a margem e exclamou:
   - Agradeço-te os cumprimentos, amigo, mas gostaria de saber como ganhastes os favores do Volga.
 Sadko respondeu:
   - Durante doze largos anos o percorri. Naveguei desde o lugar onde nasce até o lugar onde desemboca, em Astrakan. Favoreceu-me com eventos e paguei-lhe o tributo.
 O rapaz replicou:
   - Vai a Novgorod e volta esta noite trazendo contigo três pescadores e três redes. Faz com que deitem as suas redes nas minhas águas e eu te recompensarei pelo amor que dedicastes ao meu irmão.
 Sadko voltou pela noite com três pescadores e três redes. Deitaram os aparelhos e ao recolhê-los, na primeira rede havia peixes brancos como a neve; na segunda, peixes de cor vermelha viva, e na terceira outros de cores variadas, que brilhavam à luz da lua. Sadko pegou no presente de Ilmen e enterrou-o numas cavernas,sob a terra, fechando-o com barras de ferro e colocando uma sentinela a guardar o tesouro. Durante três dias não o viu, mas ao quarto dia abriu as grades das cavernas e escancarou as portas de par em par. Oh, surpresa! Os peixes brancos estavam transformados em moedas de prata, os vermelhos em ouro, os de várias cores em pérolas maravilhosas que brilhavam à luz da lua. Sadko em pé na margem do Ilmen saudou profundamente o lago e disse:
   - Obrigado te dou, Pai Ilmen, pelo tesouro de ouro, prata e pérolas maravilhosas que me ofereceste.
 O Ilmen respondeu:
   - Está bem, Sadko. Sê feliz com as tuas riquezas e prepara uma festa na cidade de Novgorod, para que se conheça uma nova glória.
 Sadko cumpriu a ordem de Ilmen. Houve festejos em Novgorod durante três dias e três noites.
 Sadko, o homem mais rico de Novgorod, passeava pela praça do mercado quando descobriu num recanto muito escuro uma pilha de porcelanas quebradas. Sorridente, perguntou aos vendedores:
   - Vocês vendem estas porcelanas?
   - Sim, Sadko.
 Sadko comprou os restos de porcelana e disse:
   - Pode ser que as crianças gostem de brincar com isto e se lembrem mais tarde de Sadko. Dirão: "Rico era Sadko, ou rica era a cidade de Novgorod, que possui tesouros trazidos do fundo dos mares. Mas Novgorod também é rica em porcelanas partidas".


Apollinarii Vasnetsov (1856-1933) - Old Veliky Novgorod, 1901. Óleo sobre tela, 106 x 177 cm.


   Fonte: 

MOUTINHO, Viale. Contos Populares Russos. São Paulo: editora Landy, 2000.

A Ponte de Zhaozhou - Conto Popular Chinês

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , , , , ,

  

   A pedido de um leitor, que pediu para que eu postasse mais sobre a mitologia chinesa, eis aqui um conto Han, bem popular na China:


   Na cidade Zhazhou havia duas pontes, uma do lado sul e outra do lado oeste. A maior era a do sul e foi construída por Lu Ban, e a mais pequena, ou seja, a do oeste foi construída pela sua irmã Lu Jiang.
   Lu Ban e a sua irmã andavam a viajar pela China até que chegaram a Zhaozhou. Lá ao longe viram as muralhas douradas da cidade, mas, quando se aproximaram, viram que um rio, cujas águas brilhavam com a luz do sol, lhes barrava o caminho. Na margem havia uma multidão de pessoas que gritavam e se empurravam para ver quem é que conseguia passar primeiro para entrar na cidade. O rio tinha uma corrente bastante forte e só havia dois barquinhos para fazer a travessia. Por isso levava muito tempo a passar e além disso levava poucas pessoas de cada vez. Entre a multidão havia comerciantes de arroz, de palha, carregadores de sal, vendedores de tâmaras, camponeses que levavam algodão para fiação, comerciantes de tecidos que iam para a feira do templo... Uns levavam toda a carga aos ombros, outros levavam-na em burros ou em carroças.
   Muitas vezes alguns perdiam a paciência e provocavam cenas de desacato. Ao ver isto, Lu Ban perguntou aos que estavam à sua volta:
  - Por que é que não constroem uma ponte sobre o rio?
   Perguntou a várias pessoas e todas responderam:

   Dez lis tem o rio de largura,
   Há areias movediças na fundura.
   Muitos o têm projetado
   Nenhum o levou de acabado.

   Então Lu Ban e Lu Jiang examinaram o terreno e a força da água e resolveram construir duas pontes.
   Lu Jiang estava farta de ouvir gabar a habilidade do irmão, mas, como não estava muito convencida disso, quis desafiá-lo e por isso disse-lhe:
  - Cada um de nós vai construir uma ponte e havemos de ver quem é que a acaba primeiro. Começamos a obra ao cair da noite e quando o galo cantar, a ponte tem de estar construída. Quem não conseguir acabar, deve dar-se por vencido.
   Lu Ban aceitou. E ficou então decidido que iria construir a ponte do lado sul da cidade e Lu Jiang do lado oeste.
   Mal Lu Jiang chegou ao local escolhido para a construção da ponte, começou logo a fazer os preparativos necessários e pôs mão à obra. Ainda não era meia noite e já tinha acabado. Pensou então que desta vez iria passar à frente do irmão e querendo ver como é que lhe corriam as coisas, sem que ninguém a visse, foi espiá-lo. Mas qual não foi o seu espanto ao chegar lá e ver que estava tudo na mesma. Não viu nem sombras de nenhuma ponte e o seu irmão também não estava por ali. "onde é que ele se meteu?", interrogou-se admirada. Mas logo viu ao longe um pastor com um rebanho de carneiros que vinham a descer o monte Taihang. Rolavam pela encosta abaixo, ás cambalhotas, e vinham na sua direção.
   Quando chegaram perto de onde ela estava, viu que o pastor era o seu irmão e que o rebanho eram pedras de mármore, lisinhas e brancas como a neve. Ao ver isto sentiu um aperto no coração. Com tais pedras o seu irmão iria decerto construir uma ponte sólida e muito bela. O que seria da sua em comparação com esta? Era preciso encontrar uma maneira de a embelezar. Teve uma ideia, correu logo para a sua ponte e pôs-se a ornamentar os resguardos da ponte com esculturas. Ao fim de certo tempo, esta estava já toda decorada com esculturas de um guardador de gado, de uma tecelã, de uma fênix a voar em direção ao sol, de flores, de plantas raras, etc. Admirou sua obra e sentiu-se feliz. E não aguentando mais estar ali, correu de novo para junto do lugar onde seu irmão devia construir a ponte para ver se ele já tinha terminado. E desta vez sim, a ponte estava já quase acabada, só faltava pôr mais duas pedras. Então cheia de impaciência, Lu Jiang imitou por duas vezes o canto do galo, o que fez com que todos os galos da aldeia acordassem e se pusessem a cantar: có, có, có, có, có!... Ao ouvi-los, Lu Ban apressou-se a colocar as pedras que faltavam e assim a sua ponte ficou concluída até o cantar do galo como tinha sido combinado.
   Das suas pontes, uma era grande e a outra era pequena. A ponte que Lu Ban construíra era de uma grandeza imponente e tinha um aspecto sóbrio, por isso ficou conhecida por "a grande ponte de pedra".
   A que Lu Jiang tinha construído estava decorada com belas esculturas. Ficou conhecida por "a pequena ponte". A partir de então, sempre que as moças queriam bordar almofadas, pantufas, etc., as mães aconselhavam-nas a ir até a ponte oeste da cidade para copiar um daqueles bonitos arbustos de flores que ornamentavam os resguardos da pequena ponte.

Ilustração retratando Lu Ban e sua irmã Lu Jiang

   A notícia de que em Zhaozhou tinham sido construídas numa só noite uma ponte tão sólida e outra tão bonita correu rapidamente por todas as cidades da região e chegou aos ouvidos dos *Oito Imortais, que viviam nas grutas de Penlai. Um deles, Zhang Guolao, cheio de curiosidade, mal ouviu a notícia foi buscar o seu burro de crina negra e pôs-lhe às costas um saco no qual tinha colocado do lado esquerdo o Sol e do lado direito a Lua. E convidou o rei Chai para o acompanhar, o qual levou um carrinho cujo estrado era de ouro e as pegas de prata. Puseram em cima do carrinho as quatro grandes montanhas e lá foram para Zhazhou. Assim que chegaram junto da ponte, Zhang Guloao perguntou em voz alta:
  - Quem é que construiu essa ponte?
   Lu Ban, que estava ali a verififcar a solidez dos resguardos e do vão da ponte, respondeu:
  - Fui eu. O que aconteceu? Há alguma coisa de errado?
   Zhang  Guolao apontou para o burro e para o carrinho de mão e disse:
  - Nós queríamos atravessar a ponte, julgas que ela pode aguentar este peso todo?
   Lu Ban desatou a rir e respondeu:
  - Se mulas e cavalos passam por ela, por que é que um burro e um carrinho de mão não haviam de poder passar? Vá! Passem!
   Zhang Guolao e o rei Chai trocaram um sorriso entre eles e começaram a atravessar a ponte. Mas lhe puseram o pé em cima, esta começou a abanar como se fosse desmoronar-se. Lu Ban correu para debaixo dela para a aguentar, segurando-a com os braços e só assim os dois puderam passar sem problemas. A ponte não só aguentou bem como ficou ainda mais sólida. Só que do lado sul ficou um pouco fora do lugar. Hoje podem-se ver lá sinais dos cascos do burro de Zhang Gulao e o rodado deixado pelo carrinho de mão do rei Chai que ficou marcado numa distância de um metro. Por baixo da ponte vêem-se ainda também as marcas das mãos de Lu ban. Houve tempo em que se vendiam pinturas de Ano Novo que representavam Lu Ban a segurar a ponte.
   Depois de passar para o lado de lá, Zhang Gulao voltou-se para Lu Ban e disse:
  - É uma pena que a tua vista seja tão má!
   Lu Ban só então viu quem eles eram. Reconhecendo que seus olhos não foram capazes de identificar logo tão importantes personagens, envergonhado, arrancou um dos seus olhos, pousou-o atrás da ponte e foi-se embora sem dizer nada. Pouco depois, o rei dos escudeiros passou por ali e vendo o olho de Lu Ban, apanhou-o e pô-lo na testa. E é por isso que em todas as pinturas e desenhos o rei dos escudeiros aparece sempre com três olhos.
  Lu Ban hoje é o patrono dos carpinteiros e é por isso que estes fecham um olho quando querem verificar se uma linha está direita.
  Durante várias gerações, os habitantes de Zhaozhou recordaram Lu Ban com reconhecimento pela construção da grande ponte de pedra e ainda hoje os guardadores de gado cantam esta canção:

   Quem construiu a ponte de Zhaozhou? 
   E quem foi que, qo passar lá com burro,
   a fez inclinar um pouco para o oeste?
   E quem é que lá passou com um carrinho de mão,
   e deixou bem marcado o rodado?
   Foi Lu Ban que fez esta ponte.
   E Zhang Gulao, ao passar lá com o seu burro,
   fê-la inclinar para o lado oeste.
   E foi o rei Chai que, com o seu carrinho,
   Aí deixou bem marcado um rodado.




Foto da ponte de Zhaozhou

   *Os Oito Imortais são um grupo de deidades mitológicas chinesas que aparecem em lendas e textos tradicionais da doutrina taoista. Eles agem como super-heróis santos e atuam na vida de seus devotos de várias maneiras. Diferentemente dos deuses de mitologias politeístas, os Oito Imortais são pessoas comuns que chegaram à iluminação e se tornaram imortais e etéreas. Todos eles estão ligados a figuras históricas (que realmente existiram ou não) das dinastias reais chinesas entre 206 a.C. e 1279. Podem ser, por exemplo, um primo de um imperador da dinastia Tang ou um general sem nome do exército dos Song.




  Fonte: livro Contos Populares Chineses, traduzido pelo Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim, República Popular na China.
 http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quem-sao-os-oito-imortais

A Missa dos Mortos - Lenda da Região Central do Brasil

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , ,




  De todas as coisas, porém, capazes de arrepiar cabelo, e que ouvi em minha infância ouro-pretana, nenhuma tão tremenda como a Missa dos Mortos, na Igreja das Mercês de Cima.
  Quem me contou é uma pessoa conhecida em toda a cidade de Ouro Preto, e exercia funções incompatíveis com o uso da falsidade em suas informações.
  Foi João Leite, o saudoso João Leite, pardo, miudinho, anguloso, sempre montado em seu cavalinho branco, minúscula montaria de hábitos austeros, que se contentava de viver da escassa relva do adro da Igreja.
  Seria possível que uma pessoa estimável e honesta como João Leite, sacristão de confiança de uma irmandade, zelador de um templo, tivesse coragem de depois pregar uma mentira envolvendo mortos respeitáveis, fosse tranquilamente dormir na sacristia, tendo ao lado um cemitério?
  Tenho dúvidas. João Leite era ele próprio uma figura mista, metade deste mundo, metade do outro.
  Suas origens eram misteriosas. Foi enjeitado, com horas de nascido, à porta da Santa Casa, em época que não se sabe. Não se sabe, ainda, quando começou a funcionar como sacristão das Mercês. As mais velhas pessoas da cidade já o conheciam desde criança, nesse mister, com a mesma cara, sempre com o mesmo cavalinho branco.
  Quando alguém indagava de João Leite suas origens ou o tempo que servia Nossa Senhora das Mercês, em sua Igreja, João Leite sorria e não respondia nada.
  Um belo dia, há alguns anos, foi encontrado morto diante do altar-mor, deitado no chão, com as mãos sobre o peito, arrumadinho como se estivesse dentro de um caixão. O cavalinho branco sumiu sem que dele ninguém desse notícias.
  Pois João Leite, segundo narrativa que lhe ouvi, já lá vão mais de trinta anos, assistiu a uma "Missa dos Mortos".
  Morando na sacristia do templo cuja conserva lhe era confiada, achava-se recolhido altas horas da noite, quando ouviu bulha* na capela.
  A noite era fria e João Leite estava com a cabeça coberta para esquentar-se melhor. Descobriu-a e abrindo os olhos viu claridade.
  Seriam ladrões? Mas a Igreja era pobre e qualquer ladrão, por mais estúpido que fosse, saberia que a Igreja das Mercês, sendo paupérrima, não dispunha de prataria, ou de qualquer outra coisa de valor mercantil. Enfim, poderia ser, raciocinou João Leite.
  Estava nessa dúvida quando ouviu sussurrando por vozes cavas em coro, o "Deus vos salve" do começo da ladainha.
  Ergueu-se e foi resolutamente pelo corredor até a porta que dá para a nave. A Igreja estava toda iluminada, altares, lustres; e completamente cheia de fiéis.
  No altar-mor, um sacerdote paramentado celebrava missa.
  João Leite estranhou a nuca do padre, muito branca, não se lembrando de calvície tão completa no clero de Ouro Preto.
  Os fiéis que enchiam a Igreja trajavam todos de preto, e entre eles alguns de cogulas*, e algumas senhoras com o hábito das Mercês; todos de cabeças baixas.
  Quando o Padre celebrante se voltou para dizer o Dominus Vobiscum, João Leite verificou que era uma simples caveira que ele tinha em lugar da cabeça.
  Assustou-se, e nesse momento reparando nos assistentes, agora de pé, viu que também eles não eram mais do que esqueletos vestidos.
   procurou logo afastar-se dali, e caminhando, deu com a porta que dava para o cemitério completamente escancarada.
  O melhor que tinha a fazer, fez. Recolheu-se à cama, cobriu a cabeça, transido de medo, e ficou quietinho ouvindo o sussuro das vozes orando, o tinir da campainha na "Consagração" e no "Domine nom sum dignus", até que voltou de novo o pesado silêncio das frias noites de Vila Rica.




  Vocabulário:
  *Bulha: ruído ou gritaria de uma ou mais pessoas; efeito de sons baralhados; confusão sonora.
*Cogula: túnica de mangas largas e compridas e capuz usada pelos religiosos de algumas ordens; parte do hábito monástico que cobre a cabeça e cai sobre as espáduas.


Notas:
Augusto de Lima Júnior. Histórias e Lendas, pp. 154-156, Rio de Janeiro, 1935. Lenda tradicionalíssima em todo Brasil. O registro transcrito indica como se tendo passado na igreja de Nossa Senhora das Mercês, de Cima, em Ouro Preto, Minas Gerais.


  Fonte: livro Lendas Brasileiras, de Luís da Câmara Cascudo

As Mangas de Jasmim de Itamaracá - Lenda do Nordeste do Brasil

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , ,


  Olá pessoal! Eis aqui um conto brasileiro bem antigo, tanto que até a escrita é diferente. Caso vejam apóstrofos no lugar de algumas letras faltando, não são erros de digitação, é que no século 17 o português do Brasil era bem diferente e ainda muito parecido com o de Portugal. Foi retirado do livro "Lendas Brasileiras", de Luis Câmara Cascudo.



  No ano de 1631, vivia na Capitania da Paraíba, Antônio Homem de Saldanha e Albuquerque, natural dessa mesma Capitania, que, encantado com a beleza e dotes de D. Sancha Coutinho, donzela de quinze anos, filha do abastado agricultor João Paulo Vaz Coutinho, senhor do "Engenho Andirobeira", situado a uma légua de distância da costa, aspirava a honra de a receber por esposa.
  Dirigindo-se a seus pais, e solicitando a sua mão em casamento, eles a isso tenazmente se opuseram. Saldanha e Albuquerque, assim desenganado e desesperado pela recusa, que apagava todos os seus sonhos de felicidade e amor, sem mais esperanças e ambições, alista-se no exército, e marcha para o campo de guerra, quando as forças holandesas invadiram as plagas de sua província natal.
  Saldanha e Albuquerque foi um dos heróis do célebre ataque do forte do Cabedelo. Passou-se para Pernambuco, e em 1933, na gloriosa defesa do Arraial do Bom Jesus, caiu, como morto, ferido por uma bala.
  Em 1646, anos depois de suas desventuras, reaparece Saldanha e Albuquerque nessa província, mas trajando o hábito de sacerdote, sob o nome de Aires Ivo Corrêa.
  A chegada dele foi assim celebrada:

  São treze anos passados,
  E de Jesus ao mosteiro
  Chega a Olinda em pobres trajes
  Um sacerdote estrangeiro

  Traz o rosto macerado,
  Que a dor o espr'ito lhe rende;
  Nos olhos se lhe apagaram
  As paixões que o mundo acende.

  Em anéis d'oiro os cabelos
  pelos ombros se declinam;
  Palavras qu'esse anjo solta
  Só perdão e amor ensinam.

  Dias depois, partiu o Pdre Aires para a ilha de Itamaracá. Por esse tempo, já não existiam os pais de D. Sancha Coutinho; e ela, triste, abatida, e ralada de saudades, aí vivia então, em casa de seu irmão Nuno Coutinho, quando apareceu o padre em sua casa; reconhecendo naquele humilde sacerdote, o seu desventurado amante, morreu subitamente.

  Quis ser ela a derradeira
  Em ver o santo varão,
  Mas põe-lhe os olhos no rosto
  "Ai, meu Deus!" e cai no chão.

  Sobre o sepulcro de D. Sancha Coutinho, plantou o padre Aires Ivo Corrêa uma mangueira, de cujos frutos provêm as mangas de jasmim, tão celebradas pelo seu aroma e delicado sabor.

  E no lugar do sepulcro
  Uma mangueira plantou
  Onde o hábito de Sancha
  Até morrer aspirou.

  Visões que ela lh'ofr'ecia
  Não são d' humano juízo;
  A sombra que ela lhe dava 
  Era a sombra do pr'aíso.

  Inda em torno da mangueira
  Se vê um lindo jardim;
  E as mangas do Padre Aires
  São as mangas de Jasmim.




  Nota: 

  Escrito por Francisco Augusto Pereira da Costa, 1851-1923. Com o título de "As mangas de Jasmim", divulgou Pereira da Costa essa lenda, tradicional em Pernambuco. Foi posteriormente reunida à p. 69 do "Mosaico Pernambucano", revista de história de Pernambuco, nº 3-4, outubro-novembro de 1927, Recife. O autor informa: "esses versos são produção do Dr. José Soarez de Azevedo, fragmento de uma bela poesia sobre a tradição popular das mangas de jasmim, da ilha de Itamaracá.

A Caixinha de Alfinetes da Anjana - Conto Popular Espanhol - Cantábria

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , , , , ,


  Na Cantábria, há umas bruxas chamadas anjanas, possuidoras de grandes poderes, que recompensam os bons e castigam os maus. Há também os ojáncanos (cíclopes), bruxos com um só olho no meio da testa, que só pensam em prejudicar as pessoas. Vivem em grutas e são eternos inimigos das anjanas.
  Um dia, uma anjana perdeu uma pequenina caixa que continha quatro alfinetes, cada qual com um brilhante, e tres agulhas de prata com orifício de ouro.
  Uma mendiga, que andava pedindo esmolas de povoado em povoado, encontrou a caixinha. Mas sua alegria durou pouco, pois logoa mendiga concluiu que, se tentasse vender a caixinha, todos pensariam que a havia roubado. Assim, não sabendo o que fazer com aquele tesouro, resolveu guardá-lo.
  A mendiga vivia com um filho, já moço, que a ajudava a conseguir seu sustento. Certo dia, o rapaz foi até o bosque, na encosta de um monte, para apanhar frutos silvestres. Estava tão concentrado em escolher os frutos mais saborosos, que não percebeu a presença de um ojáncano, que o raptou, num abrir e fechar de olhos.
  Desesperada, ao ver que passavam os dias e seu filho não voltava, a pobre mulher continuou pedindo esmolas, sempre levando a preciosa caixinha no bolso. Como não sabia que um ojáncano havia raptado seu filho, julgou que ele houvesse se perdido no bosque e que agora já estivesse morto. Então chorou amargamente, porque aquele era seu único filho.
  Certo dia, depois de pedir esmolas durante  horas, sem conseguir quase nada, passou diante de uma velhinha que costurava. Justo naquele momento, a agulha da velhinha se partiu e ela perguntou:
  - Por acaso a senhora não teria uma agulha para me emprestar?
  - Tenho, sim, pois outro dia encontrei uma caixinha com quatro alfinetes e três agulhas - respondeu a mendiga. - Por tanto, vou lhe dar uma.
  A velhinha agradeceu e a mendiga seguiu seu caminho. Pouco depois, passou diante de uma moça muito bonita, que estava fazendo barra num vestido. E aconteceu exatamente o mesmo: a agulha da moça se quebrou. Então, a mendiga deu de presente a segunda agulha.
  Mais tarde, passou diante de uma menina que bordava... E uma vez mais o fato se repetiu. Assim, a mendiga deu de presente a terceira agulha.
  Na caixinha, só restavam os alfinetes. E aconteceu que no final daquele dia a mendiga encontrou uma jovem, que tinha um espinho cravado no pé. A jovem lhe perguntou se ela não teria um alfinete para ajudá-la a tirar o espinho. E, claro, a mendiga deu-lhe um dos alfinetes.
  Ao cair da tarde, encontrou outra moça, que chorava desconsolada, pois havia rasgado sua saia num arbusto. Com isso, a mendiga deu seus três últimos três alfinetes para que a moça arrumasse a saia. Assim, acabou ficando com a caixinha vazia.
  A mendiga continuou andando e chegou a um rio. Mas não havia ponte para atravessá-lo. Então ela caminhou pela margem, na esperança de encontrar vau, um trecho onde o rio fosse mais raso, para que pudesse passar. Estava concentrada nisso, quando ouviu uma voz que parecia vir da caixinha:
 - Aperte-me contra a margem do rio.
  A mendiga obedeceu. De repente, surgiu uma grande prancha de madeira, que cruzava o rio de lado a lado, como uma ponte. Assim, a mendiga pôde chegar à outra margem. Ouviu novamente a voz que, agora não restava dúvida, vinha mesmo da caixinha:
 - Sempre que você desejar algo, ou precisar de ajuda, aperte-me.
  A mendiga seguiu o seu caminho, mas teve a má sorte de não encontrar nenhuma casa onde pedir esmolas. O dia, que já se findava, tinha sido exaustivo. E ela sentia uma fome terrível. Então lembrou-se da caixinha e pensou: "Será que ela me daria algo para comer?"
  Apertou a caixinha com as duas mãos e no mesmo instante apareceu um pão quentinho, como se tivesse acabado de sair do forno. Muito contente, a mendiga o saboreou com prazer enquanto continuava sua caminhada. Pouco tempo depois avistou uma casa, à qual se dirigiu, a passos largos, para pedir esmola. Mas na casa só havia uma mulher que chorava pela perda da filha, que tinha sido raptada por um ojáncano que vivia no bosque, na encosta do monte. Compadecida, a mendiga lhe disse que  iria até lá procurar a moça.
  Mas nem sabia por onde começar a busca. Por isso, decidiu recorrer uma vez mais à caixinha. Apertou-a com força e, no momento seguinte, apareceu uma corça, com uma grande mancha em forma de meia-lua, na testa. A corça olhou-a com mansidão e, em seguida, começou a andar em direção ao bosque. A mendiga a acompanhou por muito tempo, até que a corça se deteve diante de uma grande pedra e ali permaneceu, como se esperasse por algo, ou alguém.
  Desconcertada, a mendiga voltou a apertar a caixinha e, diante de seus olhos, surgiu um martelo bastante pesado. Erguendo-o com dificuldade, a mendiga golpeou a pedra com todas as suas forças, até que esta se rompeu, deixando à mostra a entrada de uma gruta... Era ali que morava o ojáncano.
  A mendiga entrou, acompanhada pela corça. Embora a gruta estivesse mergulhada na mais completa escuridão, a meia-lua na testa da corça brilhava, iluminando o caminho. As duas vasculharam a gruta, até que encontraram um rapaz, que dormia profundamente.
  A mendiga reconheceu nele o filho desaparecido algum tempo atrás. Então compreendeu que o ojáncano que habitava aquela gruta o havia raptado. Emocionada, ela despertou o filho. Ambos se abraçaram com imensa alegria e apressaram-se a sair dali com a ajuda da corça.
  Os três foram para a casa da mulher que chorava a perda da filha. Mas, lá chegando, a mendiga viu que ela já não chorava a perda da filha. E reconheceu, por seu olhar bondoso, que aquela mulher era uma anjana.
 - A partir de hoje, esta será sua casa - disse a anjana. - Nunca mais deixe que seu filho vá ao bosque, a menos que ele prometa que tomará muito cuidado. Agora, aperte pela última vez a caixinha.
  A mendiga obedeceu. Pressionou a caixinha com força e, logo em seguida, apareceram cinquenta ovelhas, cinquenta cabras e seis vacas. Assim que terminaram de contar os animais, a mendiga e o filho viram que a corça, a anjana e a caixinha de alfinetes haviam desaparecido, como que por um passe da mais pura magia.

Cantábria é uma comunidade autônoma localizada no norte de Espanha. É limitada a leste pelo País Basco, a sul por Castela e Leão, a oeste pelo Principado de Astúrias e a norte pelo Golfo da Biscaia.

Anjana, bruxa boa da Mitologia Cantabriana

Ojáncano, cíclope da Mitologia Cantabriana


Fonte: livro Contos Populares Espanhóis, seleção e tradução por Yara Maria Camillo (original de José Maria Guelbenzu)

La Barretina Verde - Conto Popular Espanhol - Catalunha

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  Era uma vez um homem de coração puro, que reunia grandes qualidades de caráter. Logo vocês verão o que lhe aconteceu...
  Certo dia, esse homem encontrou uma bruxa transformada em raposa. A bruxa não podia voltar a sua forma de mulher porque, ao banhar-se no rio, tinha deixado suas roupas num arbusto e alguns rapazes as haviam roubado.
  Já que ninguém estranha a nudez dos animais, a bruxa havia preferido se transformar em um deles  para não causar escândalo.
  Impressionado com essa triste história, o homem foi buscar as roupas para que a mulher se vestisse e, assim, deixasse de ser raposa.
  A bruxa, muito grata, deu-lhe um gorro verde e disse:
 - Com este gorro, você poderá ler os pensamentos das pessoas.
  O bom homem ficou muito feliz com o presente. Agora, poderia saber o que as pessoas pensavam a seu respeito. Assim, encontraria sempre a melhor forma de se entender com elas. E sua vida seria muito mais agradável.
  Logo lembrou-se de um vizinho, que vivia reclamando por causa de uma nogueira que ficava entre o seu quintal e o dele. O problema poderia ser resolvido facilmente com um pouco de boa vontade, mas o vizinho o estava processando.
  O homem decidiu cuidar desse assunto. Colocou o gorro e foi procurar o advogado que contratara para defendê-lo. Queria conversar com ele, ouvir sua opinião e saber em que pé andava o processo. assim que o encontrou, leu seu pensamento:
  'Estive perdendo meu tempo, ocupando-me da defesa desse paspalho. Mas ainda vou reverter o jogo: cobrarei dele a quantia que necessito para o dote de minha filha, que se casará em breve. Depois, arranjarei uma boa desculpa para mandá-lo embora."
  O bom homem, horrorizado com o que acabara de descobrir, decidiu tratar do caso diretamente com o vizinho. Tentaria fazer um acordo, dispensaria o advogado e, assim, o problema estaria resolvido.
  Sem perder tempo, foi à casa do vizinho, cheio da maior boa vontade. Mas, como continuava usando o gorro verde, logo adivinhou o que o vizinho pensava:
  "Já sei o que vou fazer com esse idiota. No dia em que ele estiver cuidando de suas videiras, e que sua mulher for ao mercado, aproveitarei a oportunidade para atear fogo em sua casa."
  Nem é preciso dizer o terrível efeito que essa revelação causou ao pobre homem, que se afastou dali a passos largos, sem dar explicações.
  Desesperado, correu para casa com a intenção de contar à mulher o que havia acontecido. Queria  pedir-lhe um conselho, pois, àquela altura, não tinha ideia sobre a qual a melhor atitude a tomar , na situação em que se  encontrava.
  Devido à pressa e à angústia, esqueceu-se de tirar o gorro. Tão logo se aproximou da esposa, percebeu o que ela estava pensando:
  "Ah, veji que o imprestável do meu marido já está de volta. Qual seria o melhor jeito de me livrar dele? Talvez eu pudesse colocar veneno em sua sopa e despachá-lo para o outro mundo, que é o lugar ideal para homens santos e bobalhões. Livre deste traste, poderei me casar com aquele comerciante que anda me cortejando... Juntos, saberemos dar um bom destino ao dinheiro que esse paspalho vem guardando há anos."
  Um golpe certeiro no peito não teria abalado tanto o bom homem, que se sentia prestes a perder o juízo. Ficou tão transtornado, que teve de se apoiar numa parede para não cair. Então decidiu procurar a filha para contar-lhe as verdadeiras intenções de sua mãe.
  Logo que se aproximou da moça, pôde ler o que ela pensava:
  "Assim que meu pai sair para trabalhar, vou descobrir onde ele guarda o dinheiro que vem economizando há tanto tempo. Pegarei o dinheiro e irei à casa de Juan, que está me esperando. Fugiremos para Barcelona e nos casaremos em segredo. Afinal, sei que meu pai não aprovaria essa união. Portanto, não tem sentido pedir sua bênção... Pensando bem, até que eu poderia convencê-lo, já que ele é ingênuo como uma criança. Mas não vejo o porque me dar a esse trabalho, se posso resolver as coisas mais facilmente."
  Fora de si, o bom homem só conseguiu pensar no filho, a única pessoa que lhe restava. E foi procurá-lo em seu quarto. Encontrou-o ocupado em arrumar as malas.
  Ainda com o gorro verde, o homem logo adivinhou o pensamento do rapaz:
  "Que azar meu pai vir aqui justamente agora. Como vou lhe explicar que planejo sair de casa, correr o mundo, viver aventuras e fazer fortuna? Bem que eu poderia tentar... Mas será que vale a pena? Meu pai é um homem bom, porém um pouco burro. Aposto que eu levaria horas para convencê-lo a abençoar minha viagem. E, pensando bem, para que preciso pedir bênção se já sou um homem feito?".
 - Basta! - Gritou o homem. - Já ouvi o bastante.
  O presente da bruxa era o pior que já recebera em toda a sua vida.
  Num ímpeto, ele arrancou o gorro, que só havia lhe trazido desgosto. Atirou-o ao fogo, para que nunca mais se sentisse tentado a usá-lo.

  Por isso, na Catalunha, quando uma pessoa desesperada toma uma séria decisão, costuma-se dizer que ela "atirou o gorro ao fogo".

Catalunha, Espanha

Fonte: livro Contos Populares Espanhóis, seleção e tradução por Yara Maria Camillo (original de José Maria Guelbenzu)

O Reino Petrificado - Folclore Eslavo

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , ,

Castles of Time - Nemtsev Yuriy. Óleo sobre tela. 70x100cm. 2016.


 Era uma vez um soldado muito cuidadoso e disciplinado.
 Um dia, quando lhe faltava já pouco tempo para terminar o serviço militar, os superiores começaram a embirrar com ele e a dar-lhe bengaladas. O soldado que não os podia aturar, resolveu fugir. Pôs a mochila ás costas e a espingarda ao ombro, e começou a despedir-se dos camaradas. Um deles perguntou-lhe:
   - Aonde vais?
 O soldado respondeu:
   - Não me façam essa pergunta. Passem muito bem.
 Foi andando, andando, até que chegou a outro reino. Aí viu uma sentinela e quis saber:
   - Não haverá por aqui algum lugar onde eu possa descansar?
 A sentinela foi perguntar ao sargento, o sargento ao oficial, este ao general, e o general perguntou ao próprio czar:
 O czar mandou chamar o soldado e perguntou-lhe:
   - Quem és tu, donde vens e aonde vais?
 O soldado confessou tudo e pediu ao rei que o tomasse ao seu serviço.
 O czar disse-lhe:
   - Está bem, ficas aqui de guarda ao jardim. Tem havido aqui coisas estranhas: alguém tem vindo partir as minhas árvores prediletas. Trata pois de guardar bem o jardim, que te hei de recompensar bem.
 O soldado aceitou e pôs-se a guardar o jardim.
 Durante dois anos tudo correu bem. Mas no terceiro ano, o soldado foi um dia ver todo o jardim. E viu que metade das melhores árvores estavam todas partidas. Ficou muito assustado, pois tinha medo que o czar o mandasse enforcar.


 Agarrou na espingarda e encostou-se a uma árvore, pensativo.
 De repente, ouviu-se um grande barulho. Era uma ave enorme e medonha que vinha partir árvores. O soldado deu-lhe um tiro, mas não a matou. Apenas a feriu na asa direita. A ave deixou cair da asa três penas e fugiu. O soldado persegui-a, mas como a ave corria muito depressa, safou-se para um abismo onde ele nunca lhe poderia deitar a mão.
 O soldado não teve medo e atirou-se também. Feriu-se e ficou sem sentidos durante um dia. Quando voltou a si, levantou-se e olhou em volta, vendo um mundo igual ao de cima.
 Pensou que lá também devia haver gente. Foi andando até que chegou a uma grande cidade. À porta estava uma sentinela.
 O soldado começou a fazer perguntas ao colega, mas este calava-se e não se mexia. Tocou-o então com uma mão e viu que era de pedra. O soldado foi ver o regimento da guarda e reparou em muita gente, uns de pé e outros sentados, mas todos petrificados.
 Depois foi passear pelas ruas, e viu em toda a parte a mesma coisa: ninguém era vivo, todos estavam petrificados. Foi dar em um balcão muito bonito, entrou e viu comidas e bebidas. Todavia, em volta estava tudo silencioso e deserto. O soldado comeu e bebeu, e depois sentou-se descansando.
 De repente sentiu que havia alguém na escada. Agarrou de novo na espingarda e pôs-se à porta.
 Então entrou no quarto uma bela princesa com aias e criadas. O soldado fez-lhe continência e ela cumprimentou-o carinhosamente, dizendo:
   - Bom dia, soldado. Conta-me como te achas aqui.
 O soldado assim fez:
   - Fiquei de guarda ao jardim do czar. Veio uma grande ave e começou a partir árvores. Dei-lhe um tiro e tirei-lhe três penas de uma asa. Corri atrás dela e cheguei aqui.
 Disse-lhe a princesa:
   - Essa ave é minha irmã. Tem feito muito mal e até prejudicou o meu reino: petrificou todo o povo. Mas olha, pega neste livrinho, põe-te aqui a lê-lo desde o anoitecer até os galos cantarem. Por mais medo que tenhas, não faças caso, lê o livrinho e segura-o bem para não o tirarem de ti, senão morres. Se estiveres assim três noites, caso contigo.
 O soldado aceitou.
 Ao anoitecer, pegou o livrinho e começou a ler. De súbito ouviu-se um grande barulho e entrou no palácio um exército inteiro, apareceram diante do soldado os seus antigos superiores e começaram a repreendê-lo e a ameaçá-lo de morte por ter fugido. Carregaram as espingardas e apontaram-nas ao moço. Mas ele não lhes ligou, continuando a ler.
 Cantaram então os galos e tudo se sumiu de repente.
 A noite seguinte foi mais medonha e a terceira pior ainda. Vieram algozes com serras, machados e martelos e queriam tirar-lhe o livro das mãos e dar cabo dele. Custou-lhe muito aguentar aquilo.
 Mas assim que os galos cantaram sumiu-se tudo, na segunda e na terceira noite, tal como na primeira.
 No mesmo dia ressuscitou o reino. Havia grande movimento nas ruas e nas casas. A princesa apareceu o palácio com os seus generais e todo o séquito. Agradeceram muito ao soldado, tratando-o por majestade.
 No dia seguinte o moço casou com a bela princesa e viveram muito felizes.


    Fonte:

MOUTINHO, Viale. Contos Populares Russos. São Paulo: editora Landy, 2000.

Fênix de Ouro

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

Eis aqui outro conto de uma lenda do Folclore Chinês, tirado do livro "Lendas do Celeste Império", da autora Chaing Sing (pseudônimo da escritora Glycia Modesta de Arroxellas Galvão).
Já avisando aos leitores que Fênix de Ouro é o nome de uma moça, filha do mandarim Tsu. E nesse conto não há menção sobre a ave mitológica Fênix. Mesmo assim o conto é bem interessante!



  O Bonzo subiu lentamente as escadas de mármore que conduziam à Torre Ocidental. Seco como um pergaminho, em sua cabeça rapada viam-se as sete tatuagens do ritual religioso. Abriu a pesada porta de cedro e olhou o Grande Sino Dourado. Aproximou-se e com um martelo golpeou as bordas gigantescas que tinham textos búdicos gravados. O som cristalino se espalhou pelo céu de porcelana. A onda sonora fazia estremecer os pequenos dragões verdes que vigiavam as pontas recurvas dos telhados de laca. As cornijas esculpidas vibravam também suas inumeráveis campainhas chamando os fiéis para a hora da quinta prece.
  Depois de cada golpe, como era sonoro o sino e seus ecos, formando prolongada queixa dourada! Aos poucos a sonoridade imensa se extinguiu e um misterioso gemido feminino murmurou:
   - Ai!...
  O bonzo contemplou o sino com piedade infinita. Soltou um suspiro, fechou a porta e saiu em direção ao Santuário da Purificação. Nem ele nem o povo de Pequim ignorava o estranho sortilégio daquele sino. Sua história data de muitos séculos. Num velho alfarrábio guardado na biblioteca do Templo, lê-se o seguinte:


  Na época do imperador Yung-Lo viveu um alto magistrado chamado Tsu. Era mandarim do sétimo grau. Em seu barrete de cetim ostentava a pena de pavão e o botão de jade conferido pelo Filho do Céu. Pertencia à Academia Floresta de Pincéis, onde só eram admitidos grandes letrados. Um dia ele foi chamado à corte. O soberano ordenou que ele reunisse especialistas e mandasse fundir um grande sino. Queria, ademais, que se juntasse cobre ao metal para que o som fosse poderoso; ferro para que fosse firme; ouro para que fosse profundo e prata para que ficasse puro e cristalino. E que depois o colocassem no centro de Pequim.
  Tsu saiu do palácio pensativo. Seu coração temia pela sorte dos operários, caso a encomenda real não ficasse perfeita. Há pouco, Yung-Lo estivera prestes a sacrificar dez mil homens inocentes. Isto, apenas porque alguém lhe disse que, se os enterrasse vivos ao pé da Grande Muralha em construção, ela se manteria firme dez mil anos. Cuidadosamente Tsu persuadiu o Imperador a sacrificar apenas um bezerro, cujo nome é Wan... que em chinês quer dizer dez mil.
  Após reunir os trabalhadores, Tsu começou os preparativos para fundir o grande sino. Levaram enormes vasilhas de cobre para o Vale das Águas Rodopiantes. Prepararam cuidadosas proporções dos metais destinados a formarem a liga. Trabalharam sem cessar durante muitos dias. Contudo, uma vez fundidos os metais, assim que os separaram do molde de areia, o resultado foi lamentável. Os metais tinham se sublevado uns contra os outros; o ouro tinha se aliado com o cobre, a prata tinha se negado a unir-se com o ferro. Foi preciso recomeçar tudo.
  Houve novo fracasso. Inteirado do que ocorria o soberano declarou que se não conseguissem fundir o sino, todos seriam decapitados.
  Naquela noite, Tsu regressou taciturno. A família procurou consolá-lo em vão. Sua filha Fênix de Ouro era quem mais sofria. Seu rosto cetinoso em forma de damasco cobriu-se de tristeza. Ingênua, boa e prendada, a jovem tinha um corpo frágil e delicado. Uma grossa trança negra entremeada de pérolas lhe caia pelas costas. Após breve hesitação, ela decidiu ir procurar um homem versado em artes mágicas. Logo ao amanhecer, saiu sorrateiramente e foi até a gruta imunda onde vivia o mago. Pagou-lhe bem e disse:
   - Diga-me, o que devo fazer?
  O mágico olhou os astros, examinou a Estrada Amarela do Zodíaco, consultou as vinte e oito constelações do Palácio da Lua. Afinal falou:
   - O ouro e o cobre jamais se casarão. A prata e o ferro não se abraçarão nunca para fundirem o grande sino. Contudo... há uma maneira de se conseguir isso...
   - E qual é? - indagou ela aflita.
  O rosto do velho tomou uma expressão dura e cruel. Inclinando-se, ele murmurou qualquer coisa no ouvido da jovem. Suas palavras eram formuladas numa atitude maldosa, como a de um demônio procurando negociar uma alma por meios que ele sabe serem irresistíveis. A magia havia lhe ensinado muitos processos de vencer a vontade alheia. Tomada de supersticiosa emoção, ela recuou com o coração opresso. Pálida como um lírio e mais bela que nunca, disse baixinho:
   - Sim... eu o farei...
  E erguendo-se saiu rapidamente.
  Chegando em casa não disse nada a ninguém. Viveu inquieta até o dia em que seu pai teria que fazer a nova tentativa. Na hora marcada Tsu vestiu-se e saiu. Uma rica liteira esperava-o à porta. Ele subiu, correu as cortinas de seda escarlate; e cules de rabichos soltos vestidos de algodão azul levaram-no num trote arquejante até o Vale das Águas Rodopiantes.
  Ao chegar, ele encaminhou-se para um lugar de onde avistava claramente o trabalho dos operários. A tarefa foi realizada em meio ao maior silêncio. Só se ouvia o crepitar do fogo. Este foi aumentando até se converter num espelho luzidio. Sereno, com as mãos enfiadas nas mangas da túnica de brocado verde, Tsu observava  tudo. Estava prestes a dar o sinal para que vertessem o metal fervente na grande forma, quando um grito o deteve:
   - Perdoa-me, pai, é para salvá-los!
  E Fênix de Ouro, arrastada por uma força sobrenatural, se precipitou no metal fervente. A lava rugiu ao recebê-la e saltou  num monstruoso jato. Formou um torvelinho multicor e logo uma leve fumaça. Acalmou-se aos poucos num ruído surdo.
  Houve consternação geral. Por mais que consideremos a vida e a morte como simples transformação da matéria, ficamos chocados com o regelar do sangue quente e a imobilização dos músculos vivos. Mais ainda quando a morte é tão trágica.
  Lívido de terror, o mandarim deu um grito, cambaleou e nada mais viu, senão que as forças o abandonaram, os ouvidos zumbiam e tudo girava em torno dele. Carregaram-no para casa.
  De longe, o mago contemplava a cena. Torceu as mãos esquálidas, soltou uma gargalhada satânica e murmurou:
   - Enfim... mais uma alma penada!
  Nisso, saindo dos bosques e dos pavilhões nobres, passou um bando de pombas brancas. Cada uma trazia, para as livrar das aves de rapina, um leve tubo de bambu que o ar fazia silvar. O velho voltou os olhos para o alto. Vendo naquelas aves o símbolo da pureza e da bondade, ergueu o punho fechado e amaldiçoou-as.
  Apesar da morte de Fênix de Ouro, o trabalho tinha que ser terminado. Os operários voltaram à tarefa. Não se via o menor sinal do corpo da moça. Realizou-se a fusão. E ante os olhos assombrados de todos, surgiu a forma perfeita do grande sino.
  Pouco depois tangeram o sino pela primeira vez. Seu som ressoava numa grande distância como o surdo troar das tempestades de verão. Quando calou sua voz possante, ouviram um gemido de mulher:
   - Ai!...
  Os operários entreolharam-se assustados. Um deles murmurou:
   - Será a alma de Fênix de Ouro?...


  Recordando tudo isso, o bonzo chegou ao umbral do Santuário da Purificação. Bateu na porta. E enquanto esperava, monologou:
   - Ouvi mais uma vez o gemido da infeliz moça que ainda sofre por ter abreviado a própria existência. Só o Pai Celeste pode dar ou tirar o dom da vida. Cada um de nós tem o seu papel a desempenhar no plano da evolução. Por isso não devemos tirar as pedras do caminho alheio. Caso contrário, evitaremos que os outros progridam espiritualmente através do sofrimento, pagando pecados de vidas anteriores. Quando Fênix de Ouro esgotar o seu Carma, ela será libertada. E isso, só os deuses podem prever... Que a sabedoria de Buda, penetrando-a, possa ajudar a evolução de sua alma!
  Com um suspiro, o bonzo desprendeu-se de suas divagações e entrou no santuário, fechando a porta atrás de si.

A Filha do Imperador de Jade

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Eis aqui um conto sobre uma lenda do Folclore Chinês, tirado do livro "Lendas do Celeste Império", da autora Chaing Sing (pseudônimo da escritora Glycia Modesta de Arroxellas Galvão).


O camponês foi até a porta da cabana e abriu-a. Apoiou-se num longo cajado de bambu para firmar os passos. Sua tez era macilenta como o couro velho. Os cabelos brancos formavam uma trança rala que lhe caía pelas costas. Usava uma cabaia azul e umas calças desbotadas pelo uso.
Olhou através da fria chuva outonal e viu a terra nua e desolada. Era uma lúgubre aldeia de campos negros. Ao longe uivavam manadas de lobos famintos. As últimas inundações tinham destruído a maioria das casas e as colheitas. O povo e os rebanhos morriam de fome e de peste. Desolado, Yang viu tudo aquilo sem saber o que fazer. Não tinha meios nem forças. Todos os seus parentes e amigos tinham partido para o país da relva. A vida para ele era como um peso a suportar.
Contudo, Yang sabia viver duas vezes as coisas que o faziam sonhar: a primeira quando era atingido por elas, a segunda quando o efeito já tinha passado. Voltou a pensar nos netos que antes aquietavam-se junto dele para ouvir velhos contos de fadas. E recordou os festejos de San Nin - o Ano-Novo, quando juntos queimavam incenso Saliva de Dragão no Templo dos Deuses da Cidade; os foguetes e as aves fantásticas de papel e bambu que as crianças da aldeia soltavam no céu e faziam revoar graciosamente, acionando-as com as mãozinhas. A alegria com que ele cortava galhos de pessegueiro para armar a árvore da felicidade. Colocar um galho da felicidade acima da porta principal da casa era um velho costume tradicional usado nas ocasiões festivas. E no galho de pessegueiro ele pendurava as vinte e uma coisas preciosas, entre as quais havia: uma carpa dourada, símbolo da coragem; uma rodinha de foguete, símbolo da Festa das Duas Estrelas; dois bonequinhos, que eram o deus da felicidade com um saco de pedras preciosas eternamente cheio e o deus da abundância; um cofrezinho, símbolo dos bons negócios; uma chavinha que abria todos os tesouros; um dado da boa sorte; uma pluminha branca simbolizando o manto da Princesa Cisne, que confere a invisibilidade em casos de perigo; contas de vidro, guizos, fitinhas vermelhas - a cor da alegria - moedas de papel dourado, símbolo da prosperidade, e tantas outras coisas!
Naquela época os campos eram fecundos. A cerejeira tinha frutos tão vermelhos e em tão grande quantidade que as árvores pareciam trajar mantos de púrpura. Os pêssegos e as laranjas eram como frutos de ouro. As colmeias instaladas no oco dos pinheiros eram tão fartas, que escorria mel pelos troncos.
Soltou um longo suspiro e velhas lágrimas voltaram a ser semente nos seus olhos. Sabia que as emoções não se parecem, mas o importante é estar emocionado. Conservou-se alheio e silencioso, cheio de sentimentos e pensamentos contraditórios. Haveria para além desta outra vida? Haveria depois da morte consolação para os que sofreram?
Estas perguntas o martirizavam sem cessar. Ergueu o olhar para o céu como faz um homem doente, nele cravando os olhos encovados. Suas pernas arquearam e largando o cajado ele se ajoelhou com a cabeça de encontro à terra úmida. Começou a orar com fervor. Sua prece era cheia de súplicas comoventes. As palavras elevaram-se pelo azul numa ascensão sublime, roçaram as nuvens, tocaram o sol, desenharam no ar apelos ardentes.
No Paraíso Ocidental, Kuan Yin, a filha do Imperador de Jade, cessou de tocar o alaúde. Inclinou-se sobre as nuvens e contemplou a Terra. Em toda parte viu fome e miséria. Comovida ante tanto sofrimento decidiu ajudar aquela pobre gente.
E quando Yang ergueu a cabeça, Kuan Yin estava diante dele. Flutuavam numa auréola de luz muito suave. Vaporosa túnica resplandecente a envolvia. O rosto lindo refletia bondade e mansidão infinitas.
   - Kuan Yin! - murmurou ele, estremecendo por se encontrar tão perto da divindade.
Sons dulcíssimos, não de palavras, mas de sentido compreensível, assim deram a perceber:
   -Yang, nós conduzimos dentro de nós o culto da divindade. E sempre que alguém reza com fé, tal como fizeste, um mensageiro divino atende o seu apelo de acordo com o merecimento de cada ser.
Perplexo, o velho contemplava a deusa luminosa e diáfana. De novo sentiu a comunicação telepática.
   - Seu nome já foi escrito no Livro da Vida e da Morte. Portanto, tranquiliza-te e ora. O pássaro da eternidade irá conduzir-te para onde deves ir!
E a visão foi empalidecendo até fundir-se no ar. Trêmulo de emoção, Yang continuou ajoelhado. Tinha a certeza de que nenhuma frustração é definitiva, há sempre um imprevisto apaziguante quando tudo aparece perdido.
Ergueu-se devagar e entrou na cabana. Animava-lhe o rosto uma esperança incontida num acontecimento venturoso.

Naquele fim de tarde, Kuan Yin percorreu a China de um extremo a outro. Era a época dos Reinos Combatentes. O Império do Meio estava mergulhado nos horrores da guerra. A deusa seguiu pensativa, flutuando pelos caminhos desertos. Alcançou uma floresta. Os troncos arrancados pela força da inundação do rio Amarelo jaziam trombados tristemente. Kuan Yin soltou um suspiro e olhou em volta. Seus olhos pousaram na plantinha do arroz. Era uma erva insignificante, com espigas vazias que antes nunca tiveram grão. Passava as horas ociosamente brincando com a brisa. Curvando-se, a deusa abriu a túnica luminosa e desnudou os seios fartos. Começou então a fluir o Leite da Vida que ela deixou cair gota a gota sobre as espigar estéreis. Porém, ao cabo de uns momentos, sentiu-se exausta e implorou aos Imortais que lhe enviassem umas gotas mais.
Deu-se o milagre: algumas gotas de seu divino sangue se misturaram ao leite. E as espigas ficaram cheias de grãos brancos como o Leite da Vida. Mas alguns eram vermelhos como o sangue de Kuan Yin. Então, a deusa pediu à planta que produzisse bastante alimento para o povo necessitado e voltou á morada celestial, contente com o bem que havia feito naquele dia..
Na manhã seguinte quando Yang abriu a porta ficou deslumbrado. Seu coração bateu descompassadamente.
   - Quê! Ser-me dado a mim, tão velho, ver este milagre!
Cada ruga do seu rosto começou a tremer e seus olhos encheram-se de lágrimas. A terra estava reflorida. Os pássaros cantavam. As borboletas evoluíam por entre os verdes rebentos dos bambus e o ouro dos crisântemos. Mais além, na terra coberta de água, viu a planta do arroz com as espigas cheias.
Yang teve a impressão de que estava cercado de uma atmosfera sobrenatural. De repente, sentiu que lhe pairava acima da cabeça um ser vivo. Ergueu os olhos e viu um cisne branco de grandes asas sedosas. Empurrado por uma força oculta, ele montou às costas do cisne. E a bela ave levou-o pelo espaço, subindo sempre. Ele sentiu-se leve, jovem outra vez. Constatou que a morte não era o fim de tudo, mas sim o começo de outra vida em outros mundos de paisagens inéditas. Vinham sons suavíssimos de muito longe. Era um canto semelhante a um murmúrio muito doce. Estava tão perto do coro celestial que pôde ver aparições radiosas. E, súbito, o cisne mergulhou em poças de ar azul, penetrando na amplidão sem fim...

Hoje em dia a pequena aldeia onde viveu Yang é uma povoação cheia de vida e movimento. Do velho lavrador não resta nem mesmo uma lembrança; mas em muitos lugares da China o incenso ainda continua sendo queimado diante da imagem de Kuan Yin, a mãe da misericórdia e do conhecimento.