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O padre sem cabeça - Folclore Peruano

Author: Luiza / Marcadores: , , , ,


Há muito tempo, habitava na imaginação do povo do distrito de Tambo, na província de Islay, a história de um sacerdote que em vida era extremamente mesquinho, e que após sua morte, foi condenado a pagar por seus atos. Dizem que costumava aparecer à meia-noite, junto ao altar maior da capela, onde em vida havia sido capelão. Porém, sua aparição era sempre sem cabeça. 


  As pessoas que passavam em frente à capela à meia noite, sempre encontravam as luzes acesas, e por curiosidade, iam espiar para ver o que acontecia lá dentro àquela hora, e se horrorizavam ao ver a figura de um padre sem cabeça.


  Contam que um dia, depois das devidas cerimônias, os fiéis foram embora e fecharam as portas da capela; um jovem que estava adormecido, acabou sendo trancado dentro do recinto, e quando acordou, se espantou com a situação: trancado dentro da capela, com várias velas acesas. Começou a chamar por ajuda a gritos e golpes na porta, mas em vão, devido ao horário da noite.


  Levou um tremendo susto ao de repente ver uma figura à sua frente: um padre sem cabeça! Suas pernas fraquejaram, e quando estava quase a ponto de desmaiar, o padre lhe fez um sinal, chamando-o. E escutou uma voz, dizendo para se aproximar, que não temesse, que ele só queria rezar uma missa e que para isso precisava de alguém que o escutasse; e lhe rogava para que fosse seu ouvinte. 


  Emudecido de pavor, o jovem não teve escolha e se pôs de joelhos.O padre rezou a missa. Apagaram-se as luzes. E desapareceu para sempre esse fantasma que habitava a capela. O jovem saiu disparado até a porta, e ao perceber que permanecia trancada, caiu no chão e desmaiou. 



"El cura sín cabeza". Arte por Esther Barreto.



  Fonte:


  ARGUEDAS, José María; RÍOS, Francisco Izquierdo. Mitos, Leyendas y Cuentos Peruanos. Ministério de Educación Pública Peruana: Colección Escolar Peruana Vol. 4.,1947.

Barba Ruiva - Folclore Brasileiro

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Imagem produzida pelo Instituto Oswaldo Cruz, Piauí, 1912

 Aqui está a Lagoa de Parnaguá, limpa como um espelho e bonita como noiva enfeitada.

  Espraia-se por quinze quilômetros por cinco de largura, mas não era, tempo antigo, assim grande, poderosa como um braço de mar. Cresceu por encanto, cobrindo mato e caminho, por causa do pecado dos homens. 

  Nas Salinas, ponta leste do povoado de Parnaguá, vivia uma viúva com três filhas. O rio Fundo caía numa lagoa pequena no meio da várzea.

  Um dia, não se sabe como, a mais moça das filhas da viúva adoeceu e ninguém atinava com a moléstia. Ficou triste de pensativa. 

  Estava esperando menino e o namorado morrera sem ter ocasião de levar a moça ao altar.

  Chegando o tempo, descansou a moça nos matos e, querendo esconder a vergonha, deitou o filhinho num tacho de cobre e sacudiu-o dentro da lagoa. 

  O tacho desceu e subiu logo, trazido por uma Mãe d’Água, tremendo de raiva na sua beleza feiticeira. Amaldiçoou a moça que chorava e mergulhou.


Ilustração por Jô Oliveira

  As águas foram crescendo, subindo e correndo, numa enchente sem fim, dia e noite, alagando, encharcando, atolando, aumentando sem cessar, cumprindo uma ordem misteriosa. Tomou toda a várzea, passando por cima das carnaubeiras e buritis, dando onda como maré de enchente na lua. 

  Ficou a lagoa encantada, cheia de luzes e de vozes. Ninguém podia morar na beira porque, a noite inteira, subia do fundo d’água um choro de criança, como se chamasse a mãe para amamentar. 

  Ano vai e ano vem, o choro parou e, vez por outra, aparecia um homem moço, airoso, muito claro, menino de manhã, com barbas ruivas ao meio dia e barbado de branco ao anoitecer.

  Muita gente o viu e tem visto. Foge dos homens e procura as mulheres que vão bater roupa. Agarra-as só para abraçar e beijar. Depois, corre e pula na lagoa, desaparecendo.

  Nenhuma mulher bate roupa e toma banho sozinha, com medo do Barba Ruiva. Homem de respeito, doutor formado, tem encontrado o Filho-da-Mãe-D’água, e perde o uso de razão, horas e horas.

  Mas o Barba-Ruiva não ofende a ninguém. Corre sua sina nas águas da lagoa de Parnaguá, perseguindo mulheres e fugindo dos homens.

  Um dia desencantará, se uma mulher atirar na cabeça dele água benta e um rosário indulgenciado. Barba-Ruiva é pagão, e deixa de ser encantado sendo cristão.

  Mas não nasceu ainda essa mulher valente para desencantar o Barba-Ruiva.

  Por isso ele cumpre sua sina nas águas claras da lagoa de Parnaguá.


  




   Fonte:


  CASCUDO, Luís da Câmara. Lendas Brasileiras para Jovens. São Paulo: Global Editora, 2015.

A Viúva Fantasma - Lenda Sul-Americana

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   Em várias regiões do Chile, da Argentina, Colômbia e alguns outros países da América do Sul, há histórias sobre viúvas fantasmas. Aparentemente, não se trata do fantasma de uma viúva só e sim de várias, pois cada região tem histórias que descrevem características diferentes. As únicas características predominantes em todas as histórias são: de que as viúvas sempre estão vestidas de preto dos pés à cabeça, cobrindo o rosto com um véu igualmente preto; e de que vagam após o anoitecer em busca de homens sozinhos á cavalo. Versões recentes da lenda dizem que também pedem carona para homens que estão de carro.


   Fantasmas de viúvas são um tipo de fantasma comum nos países hispânicos da América do Sul, porém não se sabe ao certo a origem dessa lenda. Dizem que uma mulher que se torna viúva, e morre com raiva, solidão e angústia, pode não conseguir fazer a passagem para o Além e descansar em paz, por isso fica presa ao mundo terreno penando e vagando pelos lugares, descontando sua dor em qualquer homem que encontrar pela frente. Já algumas versões dizem que a mulher tomada pela raiva e o desconsolo, fez um pacto com o diabo para obter poderes sobrenaturais após a morte e poder assombrar a região. 

   Essas viúvas fantasmas costumam vagar por estradas desertas e escuras, esperando que passem homens à cavalo para aterroriza-los. Algumas delas pulam na garupa do cavalo, e apertam o torso do homem até que este desmaie asfixiado e caia do cavalo, morrendo por asfixia, ou por ferimentos da queda. Outras, possuem o poder de dominar o cavalo mesmo sem montá-lo, e guiá-lo até o penhasco, matando ambos o cavalo e o homem que o montava.

   Apesar das histórias quase sempre serem trágicas, há também as viúvas fantasma que não apresentam tanto perigo, e gostam de apenas aterrorizar os homens. Sobem na garupa do cavalo, mas se deixam cair no chão de propósito, fazendo um barulho de saco de ossos ao atingir o solo, deixando o indivíduo fugir enlouquecido de medo.

   No povoado de Amblayo, na cidade de Salta, na Argentina, há uma lenda de uma viúva fantasma que esconde um tesouro perdido, e que o descobrimento desse tesouro pode libertá-la e fazê-la descansar em paz. A viúva atrai os homens até o lugar do tesouro, porém dominada pelo ódio, os acaba matando asfixiados, dando-lhes um abraço que de início é suave e cálido, mas acaba apertado e asfixiante. E por isso a viúva fantasma do povoado de Amblayo está condenada a vagar pela terra até que alguém descubra seu tesouro.





    Fonte:

    RUEFF, Carlos Keller. Mitos y Leyendas de Chile. Santiago de Chile: Editorial Jerónimo de Vivar, 1972.

    AMORY, Dean. Las principales Leyendas, Mitos, Historias y Cuentos de Chile. Bélgica: Edgard Adriaens, 2013.

Dr. Gottfried Knoche: Experiências de Mumificação

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Dr. August Gottfried Knoche, nascido em Halberstadt na Alemanha em 1813, foi um cirurgião famoso por inventar um fluido embalsamador com o qual ele mumificou vários cadáveres. Inclusive deu um jeito pra que embalsamassem seu próprio corpo com esse fluido.

   Knoche emigrou da Alemanha para Caracas, na Venezuela em 1840, se estabelecendo na cidade de La Guaira. Assim que se estabeleceu na cidade, começou a trabalhar como médico e trouxe da Alemanha sua esposa. Lá ele viveu na região costeira e fundou o hospital San Juan de Dios entre os anos de 1854 e 1856. Rapidamente ganhou a fama de pessoa caridosa, pois cuidava de pacientes pobres sem lhes cobrar nada, enquanto trabalhava incansavelmente para curar os pacientes infectados pela epidemia de cólera, que afligia muitas pessoas durante aqueles anos. 

   A fascinação e persistência de Knoche em evitar o processo inexorável de decomposição dos corpos após a morte, fez com que ele começasse a testar seus experimentos em cadáveres da Guerra Federal* (algo que não era incomum entre estudiosos da época), levando-os em carroças do Hospital San Juan de Dios até seu laboratório, localizado na Hacienda Buena Vista, em Palmar del Picacho, no pequeno povoado de Galipán. Após algum tempo, Knoche criou um fluido que podia ser injetado nos cadáveres e conservá-los em bom estado sem a necessidade de remover seus órgãos internos. Desta maneira, o Dr. Knoche conservou vários corpos em seu laboratório para estudo.

  Knoche antecipou a chegada de sua própria morte, e se certificou de que Amelie Weismann, sua enfermeira-ajudante encarregada de administrar o fluido embalsamador nos cadáveres, preparasse doses para a preservação infinita de seu próprio corpo. Aparentemente, Dr. Knoche teria feito com que Amelie injetasse o fluido em seu corpo quando ainda estava vivo, e então se isolou em seu mausoléu para sempre.

   Amelie, a enfermeira e ajudante do Dr. Knoche, morreu em 1929 e seu corpo foi posto no mesmo mausoléu onde está o corpo do Dr. Knoche. Hoje em dia, o mausoléu está coberto de vegetação rasteira e pilhado por vândalos, saqueadores e estudantes de medicina que tentam descobrir a fórmula secreta do fluido embalsamador do Dr. Knoche, ou que apenas são atraídos pela história de seu trabalho macabro. Algumas das paredes externas, batentes da porta da entrada principal, estábulos, um tanque, um fogão e o laboratório são tudo o que restaram do mausoléu da Hacienda Buena Vista.

  Até os dias de hoje, a composição exata do fluido embalsamador é um mistério. Alguns cientistas que tentaram reproduzi-la dizem que pode ter sido uma solução potente baseada em Cloreto de Alumínio (AlCl₃).






* Guerra Federal: conflito bélico entre líderes liberais e conservadores entre os anos de 1859 e 1863.



   Fonte:

   Dr. Gottfried Knoche and His Mummies. Atlas Obscura. Disponível em <https://www.atlasobscura.com/places/dr-gottfried-knoche-and-his-mummies>. Acesso em 31 de Maio de 2020.

   MONTANO, Joaquin. Guerra Federal: características, causas, desarrollo, consecuencias. Lifeder. Disponível em:

A Origem da Noite - Folclore Tupi-Guarani

Author: Luiza / Marcadores: , , , , ,




   Há muito tempo, a noite ainda não existia na Terra. Escondida no fundo do rio, ela ficava dormindo no reino da Cobra Grande. O único que já a tinha visto, num sonho, era o pajé, numa ocasião em que havia chamado as almas dos mortos. Ninguém sabia como ela era, porque a noite não fazia parte do reino dos vivos.
   Os animais também não existiam. Ainda não tinham sido criados, mas todos os objetos falavam como os homens. Os brinquedos conversavam com as crianças, e as armas com os guerreiros.
   Um dia, a filha da Cobra Grande, que reinava no Grande Rio escuro, abandonou seu reino e foi viver na floresta. Ia se casar com Tacunha, o filho mais velho do cacique.
   Tacunha tinha três fiéis servidores que o acompanhavam por toda a aparte. No dia do casamento, pediu a eles que o deixasse sozinho com a noiva. Quando eles foram caçar, Tacunha chamou a mulher e disse:
   - Venha dormir perto de mim.
   - Agora não, não é possível - disse ela. - Ainda não é noite.
   O rapaz, espantadíssimo com a resposta, exclamou:
   - Noite? O que é isso? Você está falando de uma coisa que não existe...
   - Existe, sim - respondeu ela. - Minha mãe mantém a noite prisioneira, no fundo do Grande Rio escuro onde você me encontrou. Se quiser, peça a seus servidores para irem à procura dela. Mas eles não podem, de maneira alguma, saber o que estarão transportando. Se desobedecerem, ficarão enfeitiçados para sempre.
   O rapaz chamou os servidores e lhes disse:
   - Quero que vocês três partam para o reino da Cobra Grande, no Grande Rio. Digam a ela que sua filha mandou pedir o coco de tucumã* que ela está guardando com todo o cuidado desde o início dos tempos.



   Ao ouvir o nome da Cobra Grande, os três começaram a tremer. Jamais alguém ousara ir até o fundo das águas escuras que cortam o inferno verde. Mas partiram, embora estivessem aterrorizados. Naquele dia, todos os barulhos da floresta pareciam assustadores. Por causa da umidade, os três estavam com o cabelo colado na cabeça. Sentiam falta de ar, não conseguiam respirar direito. De vez em quando olhavam para cima, em direção à copa das árvores, para tentar ver um pedacinho do céu, e a claridade os acalmava um pouco. Depois continuavam a caminhar pelo coração daquela floresta fechada, onde tinham de andar juntos para não de perder. Quando finalmente chegaram ao reino da Cobra Grande, ela lhes deu com imenso cuidado um grande coco de tucumã, e com sua voz ríspida e assustadora, que assobiava todas as letras, disse:
   - Aqui está, podem levar. Mas prestem muita atenção e tenham cuidado. Principalmente, não deixem que o coco se abra no caminho, pois senão vocês perdem a vida no mesmo instante.
   Os três servidores partiram, intrigados com as recomendações da Cobra Grande. O que poderia existir dentro daquele coco, fechado por uma resina? Temiam que lá dentro estivesse guardado um espírito, daqueles que aparecem de repente numa encruzilhada para castigar as pessoas. A não ser que fosse um espírito bom, daqueles que vêm ajudar quem está doente ou faminto... Será que era? Como poderiam saber? Só se abrissem o coco, mas a Cobra Grande proibira...
   Prosseguiram, remando sem dizer uma palavra e foram ficando cada vez mais curiosos com um barulho esquisito. Dentro do coco havia alguma coisa que parecia cantar:
   - Ten-ten-ten-tchi, ten-ten-ten-tchi, ten-ten-ten-tchi...
   Na memória deles, agitavam-se todas as histórias que o pajé costumava contar.
   - Ten-ten-ten-tchi, ten-ten-ten-tchi...
   Já fazia muito tempo que estavam remando quando um dos servidores disse aos outros:
   - Não aguento mais. Tenho que saber o que há dentro deste coco tucumã. Vamos abrir. Não precisamos contar a ninguém. Vou fazer um buraquinho para ver. Eu esquento bem a resina e enfio uma palhinha oca. Então olho pelo canudo e vejo o que há lá dentro. A Cobra Grande e a filha nunca vão saber.
   - Não, não - protestaram juntos os outros dois servidores de Tacunha - A Cobra Grande proibiu. Disse até que perderíamos nossa vida no mesmo instante...
   Ainda pareciam ouvir a voz ríspida e ameaçadora da Cobra Grande ressoando em suas cabeças. Entre os galhos das árvores que se debruçavam sobre a margem, sentiam que milhares de olhos os espiavam. Um brilho estranho os  seguia, no fundo do rio escuro, desde que haviam deixado o reino da Cobra Grande.
    Sem dizer mais nada, continuaram a remar.
   - Ten-ten-ten-tchi, ten-ten-ten-tchi... - fazia o coco no silêncio da canoa. - Ten-ten-ten-tchi, ten-ten-ten-tchi...
   O que será que havia dentro do coco? O que podia ser aquilo? O barulho estranho os fascinava cada vez mais. A curiosidade acabou ficando maior que o medo. Até os dois que antes haviam rejeitado a ideia de abrir o coco não tinham mais tanta certeza. No fundo, talvez estivessem levando um tesouro, e podia ser que a Cobra Grande só os tivesse assustado para que eles não o roubassem. Ou talvez se tratasse de um gênio benfazejo que fazia milagres e que poderia transformá-los em senhores da aldeia. Até mesmo o pajé teria de obedecê-los se a nova mágica fosse mais poderosa que a dele! A tentação era grande. A curiosidade, maior ainda. Mas nenhum dos três se decidia a pegar o coco e abri-lo.
   Ao pararem alguns instantes para descansar e comer alguma coisa, avivaram o fogo que sempre levam na canoa quando viajam pelas inúmeras estradas de água que atravessam  o mundo em todos os sentidos. Mas não conseguiam tirar os olhos daquele coco que cantava sem parar:
   - Ten-ten-ten-tchi, ten-ten-ten-tchi, ten-ten-ten-tchi...
   Subitamente, um deles, o mais jovem, não conseguiu mais resistir à tentação. Num impulso, pegou o coco e o aproximou do fogo. Pouco a pouco a resina foi derretendo, exalando um cheiro acre que foi se tornando insuportável. De repente, foram atingidos por um jato de resina, que lhes queimou os braços. Depois tudo escureceu. As árvores ao longo da margem desapareceram como se uma imensa nuvem negra tivesse caído sobre a Terra, engolindo todas elas. E essa nuvem saíra do coco!


   Sobre as brasas ainda quentes, a única luz desse novo mundo de trevas, jazia o coco de tucumã, vazio.
   Durante um longo tempo, os três ficaram imóveis e calados. Olhavam uns para os outros, como se quisessem saber se ainda estavam vivos. Não ousavam se mexer, com medo de apagar aquele fogo que parecia mantê-los no mundo dos vivos. Finalmente, o mais velho ousou romper o silêncio e disse:
   - Estamos perdidos! A filha da Cobra grande já deve saber que nós a desobedecemos e abrimos o coco de tucumã. Ela vai nos enfeitiçar. Nossa vida está se acabando. Vamos depressa para a aldeia pedir perdão
   De fato, na aldeia, a filha da Cobra Grande disse ao marido:
   - Seus servidores abriram o coco mágico e deixaram a noite escapar. Vamos dormir e esperar que a manhã chegue.
   Enquanto dormiam, todas as coisas da floresta foram sofrendo metamorfoses: as pedras e os tocos viraram peixes e patos; o cesto que a moça tecera na véspera se transformou em onça; a canoa e o pescador também viraram patos. As petras e tocos que não se transformaram deixaram de falar e se tornaram inanimados. Os índios não compreendiam. Seu mundo não era mais o mesmo. A floresta agora estava cheia de ruídos que eles não conheciam.
   Só a filha da Cobra Grande não ficou preocupada: aquele mundo era igual ao dela...
   Quando acordou e viu brilhar a estrela-d'alva, ela disse ao marido:
   - Veja só aquela fagulha maravilhosa na noite. Ela anuncia a chegada da aurora. Vou separar o dia da noite.
   Saiu da oca para colher folhas, flores, grãos, cascas de árvore e frutinhas. Num pote colocou argila clara. Ao regressar à aldeia, ajoelhou-se numa esteira e arrumou em volta vários cestos e tabuleiros. Pegou um pilão e começou a esmagar as coisas que tinha colhido na floresta. Depois, fez umas misturas e foi produzindo diferentes tons de azul e verde, mais claros ou mais escuros. Com o urucum* chegou a um vermelho lindo e com o jenipapo* conseguiu um preto profundo, que lhe agradou muito. Estava orgulhosa de suas tintas...
   Então pegou um fiapo de palha, enrolou no dedo e lhe disse:
   - Você vai ser o cujubim, o pássaro que anuncia o dia.
   Pintou a cabeça dele de branco com a argila, e as patas de vermelho, usando a pasta de urucum que acabara de fazer. Depois, deixou-o voar, enquanto dizia:
   - Vá... todas as manhãs é você quem vai cantar para anunciar o dia.
   Depois, enrolou outro fio no dedo e falou:
   - Você sera o inhambu, o pássaro que anuncia a noite.
   Em seguida, pegou um cesto cheio de cinzas, que havia recolhido ao atravessar a clareira aberta pelo marido para que eles plantassem. Salpicou de cinzas o pássaro que acabara de criar e o deixou voar, dizendo:
   - Vá... você vai cantar ao entardecer, para anunciar que a noite está chegando.
   E o pássaro levantou voo, entoando uma melodia doce e triste.
   - Vou fazer todas essas cores dançarem e cantarem pela floresta. Vou criar pássaros de todo o tipo, tão bonitos quanto as flores e as frutas.
   Começou por uma ave meio esquisita, com um rabo bem comprido e um bico grande, que fez rir todos os índios que estavam olhando. Pintou o pássaro de vermelho e azul e o chamou de arara. A ave parecia mansa e foi pousar num galho bem em frente. Não parara de repetir:
   - Arara! Arara!
   Para o segundo pássaro, a moça criou um bico ainda maior, e escolheu para ele o verde, o azul e o amarelo. Resolveu chamá-lo de tucano-de-bico-manchado.
   Quando criou o pássaro seguinte, resolveu divertir-se um pouco. Colocou na cabeça dele uma crista vermelha muito engraçada. E o cabeça-de-fogo foi se juntar aos outros, sobre um galho. Quando ficava sozinha, a moça olhava muito para o céu e os mil tons de azul, que mudavam de acordo com a altura do Sol, a luz do luar, a chuva ou as nuvens. O azul era sua cor favorita, e ela escolheu o azul mais bonito para criar o manaquim-de-dorso-azul. Para o jacamar, pensou na clareira com todos os seus tons de verde...
   Depois foi a vez de outros tucanos, com preto, laranja e amarelo. E do tangará, todo colorido. De saíra, do gaturamo e de pequeninos beija-flores, vermelhos, verdes e azuis. Todos iam se juntar à arara, em cima do galho, e cantavam ao mesmo tempo.
   De repente, fez-se completo silêncio. Três homens estavam chegando à aldeia, com o rosto escondido pelas mãos. Eram os três servidores de Tacunha, que vinham pedir perdão a seu senhor. Os pássaros pressentiram um drama. Por isso haviam se calado.
   - Vocês desobedeceram à Cobra Grande! - exclamou Tacunha - Abriram o coco e soltaram a noite, que come todas as coisas. Vocês foram avisados, e agora estão perdidos. A filha dela vai transformar vocês em macacos. E serão condenados a pular de galho até o final dos tempos.
   E até hoje os índios sabem que são os servidores de Tacunha e os reconhecem por uma risca amarela que certos macacos têm nas costas, lembrando a resina que se derramou sobre os três quando eles abriram o coco de tucumã...




  • O mito da Criação da Noite é uma lenda inspirada nos contos indígenas da mitologia tupi-
  • * Tucumã é uma espécie de palmeira;
  • * Urucum: tintura vermelha obtida a partir da cera que recobre as sementes do urucunzeiro.
  • * Jenipapo: tintura quase preta (com tons azuis, roxos, e marrons), obtida a partir da polpa do jenipapeiro;
  • Guarani - Walmiri-atroari (Amazonas e Roraima);

    Fonte: livro A Amazônia: Mitos e Lendas, de Danièle Küss e Jean Torton, tradução de Ana Maria Machado.

Os Gigantes de Pedra - Mitologia Inca

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Apukunaq Tianan. Cusco, Peru.


   Antes  mesmo de o mundo existir, vivia Viracocha, o deus que criou a primeira terra. Não havia sol, nem lua, nem estrelas. Viracocha havia esculpido e pintado uns gigantes mas, no momento de lhes dar vida, hesitara muito em povoar a terra com homens maiores que ele. Destruiu então todos os gigantes e recomeçou seu trabalho, tendo cuidado de só esculpir homens que tivessem, no máximo, o seu tamanho. Depois, lhes deu vida. Em seguida, os reuniu e disse:
  - O principal é que não me esqueçam, mas me adorem até o final dos tempos. Sejam honestos, trabalhadores e bons. Senão, eu destruirei vocês todos!
   Durante algum tempo, os homens obedeceram às ordens de Viracocha, mas aos poucos foram se esquecendo de tudo. Até mesmo da existência do deus!
   Viracocha então ficou furioso. Não aguentava ver os homens se portando assim tão mal. Cumpriu então sua maldição: alguns foram transformados em pedra, outros foram engolidos pela terra. Finalmente, para apagar qualquer vestígio daquela vida maldita, desencadeou um dilúvio geral que afogou todos os que sobraram. Viracocha só guardou três criados, para ajudá-lo a recriar o mundo.
   Quando a terra secou totalmente, ele começou a trabalhar. Resolveu criar primeiro a luz, para que os homens não passassem a vida toda na noite absoluta. Para isso, foi até a margem de um lago imenso, que mais tarde seria chamado de Titicaca. Com um gesto, fez aparecer o sol, a lua e as estrelas. O sol era resplandescente mas, quando viu a lua subir no céu e brilhar mais do que ele, fico com ciúmes e jogou um monte de cinzas na cara dela. Por isso é que ela ficou menos brilhante e marcada de manchas cinzentas.
   Um dos três criados de Viracocha era mito desobediente, deixando o deus muito zangado. Como ele queria que o mundo fosse perfeito, não podia tolerar erros. Preferiu, então, livrar-se do criado. Com a ajuda dos outros dois, amarrou os pés e mãos dele, colocou-o sobre uma balsa e o abandonou no meio do lago. Em seguida, voltou para a margem com seus dois servidores fiéis e partiu para Tiahuanaco.
   Assim que chegaram, começaram a trabalhar. Viracocha era de uma exigência insuportável. Suas ordens eram estritas e precisas, e ele estava sempre atento para que fossem cumpridas literalmente, nos menores detalhes.
   Em pedra, ele esculpiu os diferentes tipos de homens que iam povoar esse novo mundo. Em seguida, deu-lhes uma alma e ordenou que se espalhassem em todas as direções e escolhessem as regiões em que queriam morar.




   Os homens que viram Viracocha contam que ele é branco, veste uma túnica branca com uma faixa na cintura e segura nas mãos um bastão comprido e um livro.
   Quando terminou sua obra, Viracocha se pôs a caminho para visitar a terra e ver como se comportavam os novos homens. Chegou assim a Cacha, mas os habitantes não o reconheceram. Pior ainda, vendo que era tão diferente deles, tentaram matá-lo. Ninguém na aldeia tinha a pele daquela cor, nem aquelas roupas, nem aqueles objetos nas mãos... já tinham se esquecido dele! Então Viracocha se ajoelhou e levantou o rosto para o céu. Um fogo violento escorreu pelas encostas da colina e incendiou toda a aldeia. Até as pedras queimaram como se fossem de palha. Então todos os índios, assustados, o reconheceram. Correram para ele implorando sua misericórdia, fizeram sacrifícios a seus pés e juraram adorá-lo até o fim do mundo.
   Viracocha teve pena deles e deteve o incêndio com seu bastão. Para que os homens não esquecessem esse momento, deixou que uma das colinas queimasse durante muito tempo. As enormes pedras que lá existiam arderam nas chamas durante vários dias. Quando o incêndio se extinguiu, elas tinham se tornado tão leves que um homem sozinho era capaz de levantá-las, enquanto antes eram necessários muitos apenas para deslocá-las um pouquinho! Durante muito tempo os homens levaram oferendas para Viracocha, deixando-as sobre essas pedras estranhas.
   Depois, Viracocha retomou seu caminho em direção ao oceano, para ir se encontrar com seus criados. Também eles já tinham cumprido suas tarefas, e vários dias que o esperavam.
   Viram quando ele chegou, cercado de homens e mulheres que o haviam seguido até a praia, para ouvir suas últimas palavras.
   E ele lhes disse que ia partir para sempre, mas enviaria um mensageiro divino para velar por eles e lhes ensonar tudo o que necessitavam saber. Depois virou-se, avançou par ao oceano e desapareceu no horizonte, caminhando sobre a água. Pouco a pouco, foi se confundindo com a espuma das ondas. Por isso é que os índios o chamam de Viracocha, que quer dizer "espuma do mar". E durante muito tempo, esperaram naquela praia que aparecesse o mensageiro de Viracocha.

   Viracocha, o deus mais importante do panteão Inca, representa ao mesmo tempo o deus criador e o herói civilizador. Muitas vezes se faz acompanhar de um herói "transformador", que completa sua obra e ensina aos homens os rudimentos da civilização.




   Fonte: livro Os Incas - Mitos e Lendas, de Danièle Küss e Jean Torton. Tradução de Ana Maria Machado

El Sombrerón - Folclore Latino-Americano

Author: Luiza / Marcadores: , , , , , ,


  El Sombrerón é um personagem mítico do folclore de alguns países latino-americanos, em especial Colômbia, Guatemala e México. Em cada país há uma variação da lenda, porém na maioria delas ele é descrito como um homem que se veste de preto, cavalga um cavalo da mesma cor e está sempre com um enorme chapéu de abas grandes.

    Na Colômbia

    Se trata de um homem com que se veste de preto e anda com um enorme chapéu. Aparece sempre montado em um cavalo preto que se confundia com a noite e algumas vezes é visto acompanhado de dois cachorros enormes, também pretos, presos por correntes bem grossas. É descrito como um homem maduro, com um rosto sombrio, que vive em atitude de observação permanente, sendo uma pessoa seca e resignada, que não fala com ninguém, e tampouco faz mal ás pessoas; aparece e desaparece sem se saber como.
    Por mais que se diga que ele já havia morrido, ainda sente-se sua presença. Costuma aparecer no meio do caminho aos viajantes noturnos, bêbados, encrenqueiros, trapaceiros e viciados em jogos para persegui-los. Aproveita os lugares mais ermos, em noites de lua cheia é fácil confundi-lo com as sombras que os galhos e arbustos projetam. Chega sempre de noite, a todo o galope, acompanhado de um forte vento gelado, e desaparece rapidamente.
   No ano de 1837, foi famoso na cidade de Medellín, que era um de seus lugares preferidos, onde aparecia por várias sextas-feiras seguidas percorrendo todas as ruas.
   Há histórias também de suas andanças pelos povoados do sudoeste, como os Andes, Bolívar e Jardín. E pelos povoados á beira dos rios San Juan e Baudó. Em outras regiões colombianas como Tolima, Huila e o oriente do Valle del Cauca, onde também é conhecido como "El Jinete Negro".
   Pelo sudoeste da Antioquia, o chamam também de "El Jinete sin Zamarros", e o descrevem com características distintas das conhecidas em outras regiões. A forma mais comum  atribuída a ele nessa região é de um homem alto e corpulento, com roupas de luto, revelando ser uma caveira, vestindo um enorme chapéu de abas grandes.



    Na Guatemala

    No folclore guatemalteca, El Sombrerón, também conhecido como Tzitzimite, é um anão com um chapéu enorme e um violão. Viaja em uma mula com carbono (não me pergunte o porquê), e aparece para as mulheres para cantar-lhes serenatas. Quando ele escolhe uma mulher, lhe trança o cabelo, a enlouquece e a leva consigo.
   Uma dessas mulheres encantadas por El Sombrerón, foi uma moça muito bonita, de cabelos longos, que vivia em um bairro da Antiga Guatemala. Quando a viu, logo se apaixonou por ela, procurou saber onde morava e desde então a visitou por muitas noites. Com suas serenatas fez com que ela se apaixona-se por ele. Ela não disse nada a seus pais, porém eles notaram que ela havia deixado de comer e estava a ponto de morrer. Sua mãe descobriu a causa e a levou a um convento, pensando que assim talvez ela pudesse melhorar,  porém de nada adiantou, a moça continuou sem comer, e uma certa manhã apareceu morta, com uma trança em seus cabelos. Dizem que em seu velório El Sombrerón apareceu chorando muito, e suas lágrimas eram cristalinas. Ele nunca se esquece das moças que já amou.
   Também contam que ele costuma fazer trança na crina dos cavalos e mulas da região. Os cavalga durante toda a madrugada fazendo com que fiquem exaustos, com o pretexto de que podem se tornar hostis aos humanos  durante o dia se não trabalharem bastante.
   Uma maneira dos guatemaltecos descobrirem se El Sombrerón ronda o lugar é colocando uma mesa e uma cadeira de pinho recém fabricadas perto de um estábulo ou uma sacada, colocar em cima da mesa um copo e uma garrafa de aguardente, e ao lado um violão, em noites de lua cheia. Todos devem ficar em silêncio para ouvir se ele começa a cantar e tocar.
   Ele adora moças de cabelo longo e olhos grandes. Quando a família de alguma moça que tem essas características observa que ela está sendo rondada pelo Sombrerón, deve-se imediatamente cortar seus cabelos.



   No México 

   No mito mexicano, mais especificamente no estado de Chiapas, dizem que se veste de charro (vestimenta tradicional de vaqueiros e domandores de cavalos mexicanos) branco, com botões e esporas de prata. Suas aparições vêm precedidas de relâmpagos e sons de gaita.
   Percorre os campos montado em um cavalo branco e tocando sua gaita. Sua música tem um efeito de encantamento nos gados, que os seguem obedientes a todos os celeiros, onde os deixa guardados e vai em bora ao trote de seu cavalo.
   Os rancheiros sabem que El Sombrerón esteve por lá se encontram uma fogueira apagada, uma bituca de cigarro, pegadas de botas e de ferraduras.
   O México é o lugar onde mais se encontra variações da lenda, pois pode muito bem ser contada da maneira tradicional, a qual se conta nos demais países da América Latina, da maneira citada acima, e também há relatos no país de que El Sombrerón na verdade sequestrava crianças, e que em seu enorme chapéu pendurava brinquedos para atraí-las.



    De fato essa história é um ótimo exemplo de como uma lenda do folclore pode variar conforme as regiões mesmo tendo em comum determinados elementos. A diferença da cultura de cada país, dos fatores sociais e o número de pessoas que a contam, também influenciam na metamorfose de uma lenda. É interessante prestar atenção na mudança do enredo de cada versão e comparar o que elas tem em comum. Pode até ser que talvez nunca se chegue á uma conclusão de como essa lenda surgiu, ainda mais abrangendo uma região tão grande da América Central e do Sul, porém todos esses fatores podem fazer com que se chegue a uma teoria, que talvez a explique. E essa é a parte mais legal de estudar o folclore!


   Fonte: http://www.todacolombia.com/folclor-colombia/mitos-y-leyendas/sombreron.html
   http://beethzart-elrinconcillo1.blogspot.com.br/2013/03/el-sombreron.html
   http://www.viajeporguatemala.com/guatemala/cultura/leyendas/elsombreron.html
   https://es.wikipedia.org/wiki/Sombrer%C3%B3n
   https://adameleyendas.wordpress.com/2015/01/29/mitos-y-leyendas-de-chiapas-el-sombreron/